O título desta newsletter é uma paráfrase de uma citação do senador e sociólogo norte-americano Daniel Patrick Moynihan (1927-2003). E é também uma provocação. Alguns dos que estão a ler este artigo poderão eventualmente achar que têm direito aos seus factos, considerando que isso representa uma perspectiva diferente de ver a realidade, mas não têm. Esses alegados "factos" têm um nome. São mentiras que servem um interesse específico. E também não representam um direito inscrito nos pilares essenciais da democracia. Pelo contrário, matam-na.
A verdade é essencial à sobrevivência do ecossistema democrático, sem ela desmorona-se — o povo deixa de acreditar nos dirigentes políticos e até mesmo nos vizinhos e em alguns familiares. Tudo se deslaça. É por isso que os partidos populistas radicais usam e abusam da mentira ou daquilo a que agora se chama "pós-verdade".
Os factos são únicos, a realidade acontece de determinada forma, podemos é não conhecer em dada altura todos os factos. Mas a dimensão temporal, espacial e contextual não admite factos diferentes que se auto-excluem. Tudo isto é básico no conhecimento da Humanidade, mas o poder da revolta, da ira e da emoção tem anulado a razão, de novo, na contemporaneidade.
Moynihan contestou-o activamente. "Toda a gente tem direito a uma opinião, mas não aos seus próprios factos", escreveu numa coluna de opinião no The Washington Post , em Janeiro de 1983, na qual também insistiu ser essencial aceitarmos (todos) viver com os factos. O texto foi escrito enquanto integrava a Comissão Nacional para a Reforma da Segurança Social dos EUA e Moynihan defendia que os debates sobre orçamentos e reformas deviam basear-se em dados reais e não em estatísticas manipuladas por partidos.
Isto vem a propósito do mais recente relatório Digital News Report 2026 do Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford. De acordo com o estudo , 76% dos portugueses inquiridos afirmam estar preocupados com a desinformação online . A média global dos países é de 62%. Portugal surge no topo dos países em que se regista maior preocupação com a desinformação e as fake news , acompanhado pela Nigéria, Quénia, Reino Unido e Austrália. Se, por um lado, Portugal está entre os países em que mais se confia nas notícias de uma forma geral (51%), está também entre aqueles em que a preocupação com a desinformação mais subiu nos últimos anos (em 2018 a percentagem era de 71%).
O aumento pode ser visto como algo positivo, pode querer dizer que o sentido crítico dos cidadãos aumentou e que estes distinguem agora melhor o que é verdadeiro do que é falso. Mas ao mesmo tempo, apesar da desconfiança com que são vistas as redes sociais, estas são a principal fonte de informação não por serem uma escolha consciente das pessoas, mas porque estão mais expostas a elas, diz também o relatório. Isto, numa altura em que a instabilidade política e a polarização social estão a fazer com que os cidadãos diminuam o seu interesse no consumo de notícias nos meios de comunicação tradicionais.
Outro dado preocupante: Portugal é um dos países onde menos se paga por notícias (8%). No Reino Unido, este número sobe para 10% e nos EUA para 16%. A verdade tem um preço, porque os seus fazedores investigam e garantem o seu valor — os jornalistas trabalham, os jornais investem.
O que se pode fazer? Esta é a pergunta à qual é difícil responder. Os meios de comunicação devem fazer um esforço para encontrar as melhores formas para chegar aos cidadãos sem descurar a qualidade da informação e, desejavelmente, as pessoas devem privilegiar a boa informação e pagar por ela. Estarão a investir na sua própria liberdade.
Lei Laboral mais rígida?
Mas esta newsletter é sobre Maio, mês em que fomos ver se Portugal era o segundo país com a legislação laboral mais rígida entre 38 países. É falso . Paulo Núncio disse-o com base num relatório da OCDE, mas o estudo não diz isso. E será que Amesterdão proibiu a publicidade a carne por ofender muçulmanos, como disse Ventura? Também é falso . A publicidade foi proibida por motivos ambientais.
Em Maio, também avaliámos se existem "300 mil crianças na pobreza", em Portugal, como afirmou Paulo Raimundo. E é verdade, de acordo com um estudo da Nova School of Business & Economics. E mudando de latitude, será verdade que a palavra "mãe" foi apagada da "nova caderneta da gestante" do Brasil? Não, a palavra surge várias vezes ao longo do documento.
E claro que a actualidade continuou a ser marcada pelas contradições de Donald Trump . É verdade que prometeu gasolina abaixo dos dois dólares nos EUA, mas agora custa mais de quatro (por galão). E será verdade que rejeitou recuperar "as restrições da covid " num vídeo recente sobre o hantavírus? Não, é falso. O vídeo que tem sido partilhado nas redes sociais é de Agosto de 2023. E sobre esse vírus, pode ler aqui a desmontagem de quatro mentiras que se espalharam nas últimas semanas.
Em Maio, publicámos também um longo trabalho sobre gordura satur…
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