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Tudo começou dentro de um carro de transporte por aplicativo, em Lisboa. Ana, a motorista, é portuguesa. Eu era apenas mais um passageiro entre tantos outros que ela transporta diariamente pelas ruas da cidade. Eu tinha pressa e estava atrasado para um compromisso na Avenida Escola Politécnica.
É quase um roteiro — um clichê — que costuma acontecer nessas viagens. A conversa começou por um tema aparentemente banal: o trânsito. Falávamos sobre como dirigir se tornou mais difícil nas grandes cidades do mundo, o excessivo fluxo de carros, a ditadura das SUVs para motoristas solitários parecerem grandes, a impaciência dos condutores e a sensação de que as cidades parecem ter ficado pequenas para tanta gente.
Foi então que algo mudou. O olhar da motorista ganhou outra dimensão no retrovisor. Sem qualquer transição, Ana elevou a voz, ampliou os gestos e pronunciou uma expressão que eu jamais havia ouvido nos últimos anos que visito a cidade por longas temporadas. "Agora, temos os portugueses da AIMA."
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A frase me chamou a atenção imediatamente. Não era apenas uma referência burocrática à Agência para a Integração, Migrações e Asilo . Havia ali uma classificação simbólica. Uma nova categoria humana. Existiam os portugueses. E existiam os portugueses da AIMA.
Compreendi naquele instante que não estávamos mais falando de trânsito. Estávamos falando de imigração. E eu adoro falar sobre o tema, assim como ouvir interlocutores que se predispõe a tocar no assunto.
Vieram então as referências aos muçulmanos, aos paquistaneses, aos hábitos que ela considerava inadequados, aos nômades digitais, aos franceses, alemães, holandeses, escandinavos e americanos. Todos apareciam, de alguma forma, ligados às mudanças que ela percebia em Lisboa.
A empregada romena
Em determinado momento, ela perguntou de onde eu vinha. Contei que nasci no Brasil e minha família paterna é portuguesa. Senti uma certa paz no olhar da Ana. Expliquei que estava viajando por vários países e que um dos destinos recentes havia sido a Romênia.
Para minha surpresa, os olhos dela se iluminaram. Falou da Romênia com carinho. Disse que a senhora que limpa sua casa é romena e que se trata de uma pessoa extraordinária, trabalhadora, educada, confiável e que “limpa de verdade". Havia admiração sincera na sua voz.
Então perguntei: "Você já esteve na Romênia?". Ela respondeu: "Não. Nunca fui". A conversa seguiu, mas a resposta ficou comigo.
Quantas fronteiras Ana teria atravessado ao longo da vida? Quantas vezes ela teria experimentado a condição de estrangeira? Teria sentido na própria pele o deslocamento, a adaptação, o estranhamento e a necessidade de reconstruir pertencimentos?
Pouco depois ela me perguntou: "E o senhor? Está de férias?". "Não exatamente", respondi. Contei que sou jornalista e psicanalista e que atravessava uma fase particular da vida. Uma viagem de exploração. Viajava por diferentes países observando pessoas, registrando experiências e escrevendo sobre aquilo que encontrava pelo caminho.
Continuava colaborando com a imprensa, mas também aproveitava o tempo para algo que a psicanálise me ensinou a valorizar: escutar. Escutar pessoas, histórias. Escutar aquilo que aparece quando alguém encontra espaço para falar.
Foi nesse momento que algo mudou entre nós. Não porque ela tenha abandonado suas opiniões, mas porque pareceu perceber que estava diante de alguém interessado em compreender, e não simplesmente em responder.
António Costa
A conversa então ganhou profundidade. Ela passou a falar do governo de António Costa. Na sua visão, havia sido aquele governo que criara os “portugueses da AIMA”, facilitando processos de regularização, manifestações de interesse e ampliando direitos para imigrantes. Falou da crise habitacional e da dificuldade crescente para viver em Lisboa, somando a sensação de que a cidade estava deixando de lhe pertencer.
Enquanto falava, eu a observava. Mirava o retrovisor e “lia” o olhar indignado acompanhado da fala. Havia algo de musical naquela conversa. Ana conduzia as palavras como uma maestrina tomada pela própria emoção. Ora a voz subia abruptamente, ora diminuía. Os gestos acompanhavam cada mudança de intensidade.
Mais do que argumentos, era possível perceber afetos, medo, irritação, insegurança e nostalgia. Do dó menor ao sol maior. Talvez até uma espécie de luto por uma cidade que ela acreditava estar desaparecendo.
Enquanto responsabilizava os recém-chegados pela crise habitacional, não parecia considerar que os próprios proprietários portugueses haviam participado ativamente desse processo. Foram eles que descobriram que podiam arrendar imóveis por valores cada vez mais elevados. São eles que reajustam rendas muito acima da inflação. Os próprios que transformaram a procura in…
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PúblicoIndependentCenter2 days ago The Portuguese of AIMAThe article describes an encounter between the author and a Portuguese Uber driver named Ana in Lisbon. The conversation begins with casual talk about traffic but takes a turn when Ana mentions 'the Portuguese of AIMA,' referring to people associated with the Agency for Integration, Migration, and Asylum. The phrase appears to carry cultural or social significance, though the full context is not elaborated.
Bias read (Center): The article does not present overtly biased language, nor does it take a clear stance on any political issue. It focuses on a personal anecdote involving a driver’s comment about AIMA, without editorializing or emphasizing any particular ideological perspective.
RTP NotíciasState / PublicCenter3 days ago Long lines at the AIMA gateDozens of people waited outside the Agency for Integration, Migration, and Asylum (AIMA) to be attended to. Some spent the night there, while others arrived early in the morning, hoping their situations would be resolved.
Bias read (Center): The article reports on a situation involving public service access without taking a stance or using biased language. It simply describes the events without favoring any particular side or ideology.
Diário de NotíciasIndependentCenter3 days ago Photo gallery: Portugal starts the World Cup with a sea of people at Terreiro do PaçoThe article describes the enthusiastic public support for Portugal's national football team during their World Cup opening match against Congo in Lisbon. The Terreiro do Paço square was filled with fans wearing red and green, waving flags and scarves, creating an atmosphere of unity and excitement. Despite the eventual draw (1-1), the crowd remained supportive and hopeful for future matches.
Bias read (Center): The article focuses on sports coverage, which is generally apolitical. It provides a descriptive account of the event without taking a stance, using neutral language to convey the enthusiasm and atmosphere of the crowd. There is no evident framing that suggests a political or ideological slant.
PúblicoIndependentCenter5 days ago Immigration balance of foreigners halved by 2025The net migration balance of foreigners in Portugal was halved between 2024 and 2025, according to data published by the Bank of Portugal. The number of monthly net entries dropped from 13,200 in 2024 to 6,200 in 2025. This decline is attributed to fewer entries and more exits of foreigners. Entries stabilized slightly above 10,000 per month in 2025, while exits increased to nearly 5,000 per month. The Bank of Portugal notes this represents a significant change compared to recent years.
Bias read (Center): The article presents statistical data without overtly biased language, framing, or emphasis. It reports facts based on official sources and does not take a stance on the implications of the migration trends.
Official sources cited
- government Banco de Portugal