“Desinformação”, “pseudociência”, “saúde”, “nutrição” e “comunicação” foram alguns dos termos frequentemente mencionados durante a conferência Factness: O lugar dos factos na comunicação de saúde, nutrição e fitness , que se realizou nesta quarta-feira na Sala dos Actos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa (Nova Medical School – NMS).
Na recta final do projecto de jornalismo de investigação Factness , o PÚBLICO e a NMS uniram-se, reunindo nesta conferência profissionais e investigadores para debater as conclusões e os desafios identificados no decurso da iniciativa, que foi financiada por uma bolsa da Journalism Science Alliance.
A sessão de abertura da conferência ficou a cargo de Paula Macedo, subdirectora para a Investigação da NMS, e de Helena Pereira, editora executiva do jornal PÚBLICO, que reflectiram sobre os desafios impostos pelas redes sociais e pela desinformação na saúde e nutrição. “Vivemos realmente uma época extraordinária”, afirmou Paula Macedo, referindo que “nunca produzimos tanto conhecimento científico” e nunca houve “tanta informação disponível nem tantas formas de comunicar”. “Paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir evidência de opinião, ciência de persuasão.”
A subdirectora para a Investigação da NMS reforçou ainda que as redes sociais alteraram os mecanismos tradicionais de validação do conhecimento, com o número de seguidores a substituir a competência. Mas esta não é apenas uma questão sobre desinformação : é também sobre “confiança” e responsabilidade em comunicar melhor e “garantir que os factos continuam a ser mais fortes do que o ruído nesta era digital”.
Helena Pereira frisou, por sua vez, que para combater a desinformação é preciso investigar e tal “não é tarefa fácil”. Até porque actualmente “informação duvidosa” circula nas redes sociais , muitas vezes, “mascarada de conselhos úteis”, afectando “as nossas escolhas e comportamentos”.
David Marçal , bioquímico e comunicador de ciência, orador principal da conferência, destacou o facto de o projecto Factness incidir sobre temas complexos do ponto de vista científico, salientando alguns dos problemas de representação da ciência no espaço público, incluindo a “ retórica dos resultados ” , que ignora o processo científico.
David Marçal, bioquímico e comunicador de ciência, orador principal da conferência
Nuno Ferreira Santos
Quanto à desinformação nas redes sociais, o bioquímico enumerou alguns pontos importantes: velocidade e escala, algoritmos que premeiam a indignação, falta de soberania tecnológica da Europa, regulação ineficaz, câmaras de eco (só vemos aquilo que confirma o que já pensamos), publicação facilitada (especialistas são substituídos pela popularidade), bots e contas falsas, entre outros. É, por isso, essencial que haja o envolvimento de cientistas e do ensino superior na comunicação e combate à desinformação, dialogar, explicar o processo científico, assumir o risco e a incerteza quando existem, fomentar a literacia mediática , verificar fontes e pensar antes de partilhar.
O momento seguinte da conferência consistiu na apresentação, pela investigadora da NMS Carina Martins, de alguns resultados preliminares de um questionário no âmbito do projecto Factness sobre o que pensam os leitores do PÚBLICO e os seus hábitos de consumo de informação sobre alimentação e nutrição, estando um segundo questionário ainda em curso.
Uma “dieta algorítmica saudável”
A primeira mesa-redonda da conferência teve como tema “Desinformação sobre nutrição e fitness : porque resulta e que consequências tem”, tendo contado com a participação de Cláudia Marques e Gabriela Ribeiro, investigadoras e nutricionistas da NMS, Francisca Azevedo, médica de medicina geral e familiar, José Moreno, investigador do MediaLab CIES do Instituto Universitário de Lisboa (Iscte), João Pinhal , jornalista do PÚBLICO, com a moderação de João Mestre , também jornalista do PÚBLICO.
Durante este momento de debate, Francisca Azevedo lembrou que, regra geral, os portugueses confiam na opinião médica e na ciência, sendo exemplo disso as elevadas taxas de vacinação em Portugal. Ainda assim, a desinformação circula e, comentou José Moreno, a maneira como actua na saúde não é diferente de como actua nas áreas social e política, com os países que tendem a ter maior confiança nas instituições a tenderem também a ter “melhores defesas” em relação à desinformação.
Cláudia Marques e Gabriela Ribeiro, investigadoras e nutricionistas da NMS, a médica Francisca Azevedo, José Moreno, investigador do MediaLab CIES, e os jornalistas João Pinhal e João Mestre (da esquerda para a direita)
Nuno Ferreira Santos
Nos últimos anos, segundo o investigador do MediaLab CIES, Portugal importou muito do tipo de desinformação e narrativas que existem no estrangeiro, o que tem impacto no grau de polarização de uma sociedade. Exemplo disso é o incentivo ao consumo excessivo de carne vermelha ou o seu oposto (ou seja, a restrição total).
Os espe…
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