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PTCulture4 days ago

After the Fair

The article reflects on the experience of visiting the Book Fair during early June, highlighting the variety of literature available, including bestsellers and lesser-known works. It also touches on the historical context of Camões' 'Lusíadas,' noting its initial approval by the Inquisition and later criticism by a conservative prelate. The piece acknowledges the changing attitudes toward literary content over time.

Que melhor programa para estes primeiros dias de junho que um percurso pela Feira do Livro, ao encontro da melhor poesia e da melhor literatura?

É certo que os livros de venda mais assegurada (dos “best sellers” aos curandeiros das almas) cada vez ganham mais espaço e relevo, o que torna um pouco menos fácil (mas de forma alguma impossível) encontrar o que de bom se escreve e publica no nosso país. Há muita coisa a ver, a ler, a reler, e mesmo se o que mais nos interessou este ano já o comprámos em livraria, vale a pena correr os pavilhões das editoras e os pavilhões dos alfarrabistas, pois sempre estará à nossa espera um livro sonhado ou uma inesperada descoberta.

Dediquemos, entretanto, um pensamento a Camões, como a data obriga. António Gonçalves, impressor, foi o editor da primeira edição dos Lusíadas , devidamente aprovada a sua publicação pela Santa Inquisição, com critérios que revelam suspeita abertura ao erotismo fervente de alguns episódios, o que não deixou de ser veementemente criticado poucos anos mais tarde por um pudibundo prelado de Coimbra, que todavia falhou no seu intento de proibir as escandalosas estrofes. Era assim a vida dos editores naqueles tempos, tal como aliás em tempos bem próximos do nosso e que para alguns são saudosos. No meu tempo de escola, essas estrofes eram simplesmente desaconselhadas, pelo que, naturalmente, eram as primeiras a ser lidas pela nossa curiosidade adolescente: o magnífico Canto Nono.

Como trabalharia o editor António Gonçalves? Sabemos que uma contrafação do livro foi imediatamente apresentada, com os pelicanos com o bico ao contrário (Rita Marnoto introduziu novas ideias sobre essa misteriosa rotação dos pelicanos). E sabemos mais que o êxito do poema em Espanha foi imediato e que o nosso poeta foi considerado “o príncipe dos poetas das Espanhas”, nos tempos da monarquia dual dos Filipes.

Mas aproveitemos a Feira para ir ao encontro de toda a poesia, quer da nossa língua, quer traduzida, que encontraremos um pouco atrás nas bancas das editoras, mas que lá estará presente, com as suas múltiplas vozes e composições. Os clássicos, sim, incluindo os mais esquecidos, mas também os mais recentes, os que ousaram “penetrar surdamente no reino das palavras” onde “estão os poemas que esperam ser escritos”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, como dizia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, e que assumiram enfrentar toda a grande poesia que os antecedeu. E também os ensaios, que despertam e desafiam a nossa reflexão, e as ficções, que nos vêm mostrar o mundo de outra maneira, através da criação de mundos possíveis.

Mais do que geral, a nossa língua é infinitamente particular, e não deve ter vergonha de se chamar português, como os americanos não têm vergonha de falar inglês e os canadianos do Québec não têm vergonha de falar francês. Os muitos falares do português contemporâneo e os mais que surjam no futuro só robustecem a nossa língua comum e partilhada, que não é geral, tem um nome de nascimento, um nome que vai guardando e arejando através das suas metamorfoses.

Fomos à Feira do Livro ao encontro da nossa língua. Encontrámos escritas várias e plurais, sós e mudas em estado de livro impresso, que esperam apenas que um leitor as venha acordar, palavras como belas adormecidas à espera do seu príncipe. O leitor é o príncipe das suas leituras. E a nossa experiência da vida e o nosso conhecimento do mundo estarão sempre incompletos e meio vazios sem esses encontros mágicos com a literatura, decisivos para a nossa formação.

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Diário de NotíciasIndependentCenter4 days ago
After the Fair

The article reflects on the experience of visiting the Book Fair during early June, highlighting the variety of literature available, including bestsellers and lesser-known works. It also touches on the historical context of Camões' 'Lusíadas,' noting its initial approval by the Inquisition and later criticism by a conservative prelate. The piece acknowledges the changing attitudes toward literary content over time.

Bias read (Center): The article discusses cultural events and historical literary references without taking a political stance or showing bias toward any particular ideology. It provides a balanced reflection on literature and history without favoring one perspective over another.