Nesta segunda-feira 9, o Ministério da Saúde anunciou a suspensão temporária da vacinação contra a dengue com o imunizante produzido pelo Instituto Butantan. Até o momento, cerca de 500 mil pessoas foram vacinadas, das quais 417 mil são profissionais de saúde. Foram registrados 42 eventos adversos severos e três casos graves, dois deles com evolução para óbito.
A interrupção permitirá que o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan investiguem se há relação entre os casos e a vacina aplicada. Para Arthur Chioro , ex-ministro da Saúde e colunista de CartaCapital , a decisão deve ser interpretada como uma sinal de prudência.
“A atitude do Ministério da Saúde e do Instituto Butantan é de cautela: interromper agora para realizar os estudos e, depois, liberar a vacina com segurança”, afirma ele, em entrevista a Sergio Lirio, redator-chefe de CartaCapital, no YouTube. “É isso que todos os países e todos os produtores públicos ou privados fazem quando uma vacina entra no mercado.”
Chioro também alerta para o risco de o episódio ser explorado por grupos antivacina, mas sustenta que a transparência das autoridades sanitárias é a melhor forma de preservar a confiança da população. “Esse episódio tem que ser lido de maneira exatamente contrária: como uma demonstração da seriedade do Programa Nacional de Imunizações”, diz.
Confira os destaques a seguir.
CartaCapital: Estamos falando de cerca de 500 mil pessoas vacinadas. Qual é a mensagem para esse público, que já tomou a vacina, e também para quem aguardava a imunização?
Arthur Chioro: Em primeiro lugar, entre as 501 mil pessoas vacinadas, aquelas que receberam a dose há mais de 21 dias não têm com o que se preocupar. Quem ainda está dentro dessa janela potencial de complicações deve ficar atento, mas quem já ultrapassou os 21 dias também superou o período em que poderia ocorrer algum tipo de reação.
É importante observar os números. Entre as 501 mil pessoas vacinadas, 3,7 mil apresentaram sintomas leves, como dor de cabeça. Isso representa 0,7%. Houve 42 casos de reações mais severas, que vão de manchas na pele a dores no corpo, e apenas três casos graves.
Ainda não está estabelecida uma relação de causa e efeito. A atitude tomada pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Butantan é preventiva. Ocorreram casos fatais, algo que não havia sido identificado nos ensaios clínicos de fases 1, 2 e 3, inclusive publicados na Nature , uma das revistas científicas mais importantes do mundo.
Isso não havia aparecido no estudo realizado com 16 mil voluntários. Quando se amplia o universo de pessoas vacinadas, porém, as reações mais raras — uma em 100 mil, uma em 1 milhão, uma em 10 milhões ou uma em 100 milhões — começam a aparecer.
Estamos falando de um Programa Nacional de Imunizações com mais de 50 anos, considerado uma referência, e de uma vacina extremamente segura. Foram 501 mil doses aplicadas e três casos suspeitos.
CC: Por que este momento é importante?
AC: Porque os casos serão analisados para saber, por exemplo, se as pessoas que morreram tinham alguma doença autoimune ou alguma situação de baixa imunidade. Afinal, trata-se de uma vacina de vírus vivo atenuado, que pode causar esse tipo de reação em determinados grupos.
Também será preciso descobrir se essas pessoas foram infectadas pelo vírus da dengue. Por uma infelicidade, alguém pode ter sido infectado nessa janela de 21 dias, quando o organismo ainda estava sendo estimulado a produzir anticorpos e desenvolver a proteção oferecida pela vacina.
A atitude do Ministério da Saúde e do Instituto Butantan é de prudência: interromper agora para realizar os estudos e, depois, liberar a vacina com segurança. É isso que todos os países e todos os produtores públicos ou privados fazem quando uma vacina entra no mercado.
CC: A vacina também está liberada para a faixa dos 10 aos 14 anos. De alguma forma, essa interrupção interfere nesse grupo?
AC: Precisamos fazer uma diferenciação para entender o que aconteceu.
A vacina da Takeda, a Qdenga, foi a primeira adquirida pelo Ministério da Saúde, ainda durante a gestão da ministra Nísia Trindade. Era uma vacina recomendada para pessoas dos 4 aos 60 anos.
Diante da quantidade reduzida de doses, insuficiente para cobrir toda a população dessa faixa etária, o Ministério da Saúde optou, naquele momento, por priorizar o grupo de 10 a 14 anos. Mas a vacina não era recomendada exclusivamente para essa faixa. Foi uma estratégia de introdução diante do número de frascos que o laboratório japonês podia fornecer.
No caso da vacina do Instituto Butantan, ela está indicada para pessoas dos 12 aos 59 anos. Essa tem sido a estratégia adotada no Brasil, com a vacinação realizada em três cidades e entre profissionais de saúde.
Naturalmente, por se tratar de profissionais da saúde, há uma concentração muito maior de adultos e adultos jovens entre os vacinados.
CC: Cada caso dependerá da análise e da aprovação das autoridades, mas é possível prever um prazo mínimo para…
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