O estreito de Ormuz que estava aberto antes da guerra voltará a abrir depois desta. Khamenei pai deu lugar a Khamenei filho em Teerão, onde a Guarda da Revolução se reforçou. O Irão mantém Israel e o resto do Médio Oriente na mira dos seus mísseis e dos seus aliados libaneses e iemenitas. Mantém também o que o regime sempre disse oficialmente sobre o seu programa nuclear: que os seus fins serão meramente civis e que não almeja fabricar armas atómicas.
O que alcançaram afinal os Estados Unidos e a Administração Trump com quatro meses de guerra intermitente que mataram perto de dez mil pessoas no Irão e no Líbano, que abalaram a economia mundial, que fragilizaram ainda mais a sua relação com os aliados europeus e que acabaram com a ilusão de segurança dos aliados árabes no Golfo?
Quase nada, a julgar pelo memorando de entendimento de 14 pontos inicialmente revelado pela Bloomberg na terça-feira e, entretanto, replicado por outros órgãos. Eis o que dita este pré-acordo de paz que deverá ser assinado na sexta-feira em Genebra e que será apenas um ponto de partida para negociações mais abrangentes nos 60 dias seguintes:
O Irão reitera por agora o que sempre disse, que nunca irá desenvolver armas nucleares, palavra de Teerão, pelo que o seu programa atómico preservará o statu quo . Os pormenores técnicos dessa garantia, os seus mecanismos de verificação e o destino do urânio enriquecido iraniano ficam por acertar nos tais 60 dias.
Tudo isso já tinha sido discutido há 11 anos, numa maratona negocial de ano e meio durante a Administração Obama, que produziu um acordo que Donald Trump rasgou, por considerá-lo insuficiente, ainda durante o primeiro mandato. O reinício de uma discussão altamente técnica, agora comprimida em 60 dias, ficará nas mãos de dois especialistas do imobiliário: Jared Kushner, genro de Trump, e Steve Witkoff, amigo do Presidente.
Do outro lado da mesa estará um Irão reforçado do ponto de vista negocial. Descobriu os limites da ameaça militar norte-americana, sobreviveu-lhe e aprendeu a manipular uma arma geográfica de destruição maciça: o garrote sobre o estreito de Ormuz. Este será agora reaberto, mas a memória do seu bloqueio perdurará como ferramenta de dissuasão.
O Irão vê ainda anunciado no memorando o levantamento de todas as sanções norte-americanas e internacionais, o descongelamento dos seus milhares de milhões de dólares retidos no estrangeiro e a constituição de um fundo de mais de 300 mil milhões de dólares , um PIB português e uns trocos, para a reconstrução de infra-estruturas bombardeadas. Não serão reparações de guerra, mas antes um mecanismo financeiro de capitais privados e sem um cêntimo dos contribuintes norte-americanos, palavra de Trump, ecoando o que também disse sobre o seu projecto do salão de baile da Casa Branca.
O memorando poderá libertar finalmente Trump de uma guerra impopular em que entrou, mas da qual não estava a conseguir sair, sem cumprir quaisquer objectivos estratégicos, e que estava a afundá-lo a si e ao Partido Republicano nas sondagens em ano de eleições intercalares. Mas os termos do documento estão a ser recebidos daquele lado do Atlântico como um balde de água fria. A guerra terminou com uma "retirada" norte-americana, proclama em editorial o Wall Street Journal , que apoiou inicialmente a ofensiva, e agora Trump "banha os mullahs com dinheiro", critica o conservador New York Post . No Congresso, os "falcões" republicanos replicam o alarme do executivo de Benjamin Netanyahu em Israel: a missão ficou por cumprir.
Trump não ignora o incómodo e avisou já nesta quarta-feira que pode abandonar o acordo a qualquer momento e voltar a "largar bombas nas cabeças" dos iranianos, se estes se "portarem mal" ou se o Presidente simplesmente não "gostar" do memorando. E vai estabelecendo um cordão sanitário entre si e o documento, promovendo J.D. Vance a rosto da iniciativa. Ou, novamente, a pára-raios .
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