Treze anos depois das manifestações de junho de 2013, o Brasil volta a conviver com escândalos de grande impacto, mas sem a mesma capacidade de produzir uma mobilização nacional a partir da indignação. A fraude bilionária no INSS e o caso Banco Master, além da própria deterioração da confiança nas instituições de controle da corrupção, recolocaram o assunto no debate público. Ainda assim, a corrupção já não aparece com a mesma força nas ruas nem no topo das prioridades declaradas pelo eleitor.
Em março, pesquisa Datafolha mostrou que 9% dos brasileiros apontavam corrupção, roubalheira ou desonestidade como principal problema do país, atrás de segurança e saúde e até mesmo de tópicos como economia, inflação e aumento do preço da cesta básica.
O número não significa que a sociedade tenha deixado de se incomodar com desvios de dinheiro público, já que temas como saúde e segurança são tradicionalmente relevantes nessas pesquisas. Contudo, traduz em dados uma mudança que é perceptível no ambiente político: a corrupção ainda gera indignação, mas já não produz mobilização de massa na mesma escala da década passada.
Para cientistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo , a perda de força da pauta anticorrupção não decorre do desaparecimento da aversão à corrupção, mas de uma combinação de decepção com a política, frustração com as reversões judiciais, polarização e sensação de impotência. A energia de 2013 foi canalizada por anos em manifestações de rua, no impeachment de Dilma Rousseff, na Lava Jato e na eleição de Jair Bolsonaro, mas acabou sofrendo um choque com a anulação de condenações, a volta de Lula ao poder e a percepção de que o sistema político conseguiu neutralizar boa parte da pressão popular.
“O problema é que o sentimento mais forte no Brasil hoje é o de impotência”, afirma o cientista político Christian Lohbauer, um dos fundadores do Partido Novo. “Quando você tenta fazer uma manifestação de rua hoje, não chega a um décimo do que se levava lá atrás.”
Na avaliação dele, a sociedade não deixou de se indignar com a corrupção. O que mudou foi a expectativa de eficácia da mobilização. “Todo mundo parou suas vidas, dedicou energias e se mobilizou para derrubar um governo incompetente e corrupto, que era o de Dilma Rousseff. Depois de tudo o que aconteceu – incluindo a Lava Jato, que se transformou em uma esperança de lavar a roupa suja do país e elevar as instituições a outro patamar –, nós voltamos exatamente à situação em que estávamos”, diz.
Lohbauer afirma que o retorno de Lula ao poder teve efeito simbólico decisivo sobre essa disposição de ir às ruas. O petista ficou preso em Curitiba após condenações na Lava Jato, foi solto em 2019 e teve suas condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021. “Os poderosos de hoje são aqueles que haviam sido presos e condenados por todas as instâncias da Justiça. O cidadão olha para tudo isso e se pergunta: ‘O que mais eu posso fazer?’. É um esgotamento, um sentimento de falência após uma luta intensa”, afirma.
Como os protestos de 2013 se tornaram um símbolo contra a corrupção
Embora associadas à mobilização anticorrupção, as manifestações de junho de 2013 não nasceram como protestos contra a corrupção. O estopim foi o aumento das tarifas de transporte público, especialmente em São Paulo.
Em poucos dias, porém, as passeatas se espalharam pelo país e passaram a reunir pautas difusas: serviços públicos ruins, gastos com a Copa do Mundo, rejeição ao PT e críticas ao Congresso, à classe política e à impunidade. O slogan “não é só pelos 20 centavos” sintetizou essa passagem de uma reivindicação específica para uma revolta mais ampla contra o funcionamento do Estado.
Uma das respostas mais visíveis do Congresso, naquele momento, foi a derrubada da PEC 37 de 2011, proposta que restringia o poder de investigação do Ministério Público. A medida era uma das principais bandeiras dos manifestantes, e a derrota da PEC, por 430 votos a 9 na Câmara, foi lida por muitos como prova de que a rua tinha força para impor recuos ao sistema político.
Lohbauer vê as manifestações de 2013 e o surgimento do Novo como parte de um mesmo “espírito do tempo”. O partido foi fundado em 2011, antes da explosão das ruas, mas dentro de um ambiente de incômodo crescente com a política tradicional. “Nós fundamos o Partido Novo em 2011 justamente por estarmos conscientes de que o que estava acontecendo, com a eleição da Dilma, seria uma tragédia para o país. Nós fazemos parte, modestamente, dessa parcela da sociedade que percebeu que aquilo não ia dar certo”, afirma.
Segundo ele, o descontentamento não surgiu de uma hora para outra. O Mensalão, a crise econômica internacional de 2008, a desaceleração do crescimento e o desgaste do governo Dilma formaram uma espécie de caldo anterior às manifestações. “Se você fosse medir o ‘espírito do tempo’ no Brasil naquele final da primeira década do século e o início de um novo período eleitoral, as manifestações de 2013 e o nascimento do Partido…
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