Se tem uma coisa que não falta para o chef capixaba Victor Vieira é bagagem de vida. Multifacetado e explorador nato, depois de sair do Brasil, já morou na Venezuela, nos Estados Unidos, na França e passou mais de uma década na China, onde construiu uma carreira que começou na publicidade e acabou atrás dos fogões.
Pelo caminho, tornou-se diretor criativo, trabalhou para algumas das maiores marcas do mundo, participou numa das primeiras edições do MasterChef Brasil, cozinhou em restaurantes de referência na Ásia e viu o seu nome circular entre hotéis, festivais gastronómicos e eventos gastronómicos em cidades como Xangai, Pequim, Shenzhen ou Macau.
Desde o ano a passado, a etapa da sua viagem tem se desenrolado na Rua da Boavista, Cais do Sodré, em Lisboa, onde a sua Tasca Bica se dedica, entre outros pratos, a um produto que muitos portugueses encaram quase como uma refeição automática de domingo: o frango piri-piri.
"Acho que alguém precisava de dar um bocadinho de carinho a este frango" , brinca o chef em entrevista DN Brasil no restaurante que inaugurou recentemente e que procura fazer com o frango aquilo que muitos chefs costumam reservar para ingredientes mais nobres. No menu da Tasca Bica, o que se vê isso: foco nos produtos e nas refeições do dia a dia dos portugueses, com um toque mais desconstruído e, nas suas próprias palavras, "divertido".
O frango de seis dias da Tasca Bica. Foto: DR
A ideia inicial, na verdade, era outra. Quando decidiu deixar definitivamente a China e instalar-se em Portugal, Victor chegou com um projeto bastante diferente na cabeça: queria abrir um restaurante de inspiração capixaba, focado na moqueca e nas raízes gastronómicas do Espírito Santo , estado brasileiro onde cresceu rodeado de panelas de barro, peixe fresco e almoços familiares que ajudaram a despertar a sua paixão pela cozinha.
O contato com Lisboa e com o mercado português, no entanto, acabaram por alterar os planos. "Queria fazer uma coisa de comida brasileiras mas mais fine dining. Mas percebi que precisava primeiro de conhecer melhor a cidade, as pessoas e os ingredientes" , explica. Foi então que encontrou o espaço na região da Bica e decidiu trocar a ideia inicial por um conceito mais descontraído, próximo daquilo que define como "fun dining" : algo que parece apropriado a uma das zonas mais turísticas e movimentadas da cidade.
A inspiração veio então da própria gastronomia portuguesa. "Comecei a pensar: o que é que existe aqui? Bacalhau, toda a gente gosta. Mas existe também o frango piri-piri. E eu achei que dava para explorar isso de uma forma diferente".
O resultado está bem longe do conceito tradicional das churrasqueiras portuguesas. O Frango Tasca Bica (€22) nasce de um processo que dura seis dias. O frango é maturado em gordura de presunto, fumado, assado e finalizado na brasa antes de receber um molho piri-piri desenvolvido pela equipa. É o campeão de audiência na Tasca Bica, inaugurada em março.
Antes da principal estrela, brilham outras nas entradas, como os Croquetes de Bacalhau com Atum Rabilho e Caviar Oscietra (€14) ou a Vieira Fumada com Creme de Milho Picante (€18) , prato onde aparecem de forma subtil algumas das referências asiáticas acumuladas ao longo dos anos passados na China. Há também as evidências da "comida de granja" , como diz o chef, que aqui vê-se mais do que bem representada no saudoso creme de milho do dia a dia brasileiro: encontro entre Brasil, Portugal e China no Cais de Sodré.
As influências também se misturam no Arroz de Frango com Ovo Onsen (€16) , que cruza referências portuguesas e asiáticas, enquanto propostas como os Pimentos Piquillo Recheados com Confit de Pato (€17) mostram que a Tasca Bica não é apenas a casa do frango - embora recomendemos vivamente também o Frango Frito Temperado com 69 Condimentos e Especiarias e Aioli de Chipotle (€13)
E como nem só de comida vive a Tasca Bica, A carta de bebidas acompanha a "vibe" da cozinha e afasta-se de cocktails mais previsíveis. Entre as propostas de assinatura surgem combinações como o Chipotle (€13) , preparado com gin, chipotle, cardamomo, tomate seco, tangerina e mel, o Limão (€11) , que junta medronho, limão e clara de ovo, ou o Milho (€12) , onde bourbon, milho, banana e Earl Grey se cruzam num cocktail improvável.
Há ainda opções como o Azeitona (€10) , feito com vodka, azeitonas, alcaparras e bitters, e o Flor (€12) , que combina tequila, flor de ervilha-borboleta, limão e flor de sabugueiro. Para os menos aventureiros, a casa também serve os clássicos, todos a partir de €10.
"Explorar possibilidades"
Para alguém que já rodou o mundo, a cozinha de Vic traduz um pouco quem o chef é. Na China, depois de abandonar a Coca-Cola, ele se dedicou a estudar cozinha chinesa, viajou pelo país para aprender técnicas tradicionais, aprofundou conhecimentos em gastronomia tailandesa, japonesa e coreana e trabalhou com alguns dos nomes mais respeitados da restauração asiática.
Mais tarde, durante a pandemia, consolidou a…
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