O governo brasileiro pretende fazer, em breve, sua primeira emissão de títulos de dívida pública voltada especificamente para o mercado financeiro chinês, com negociação em yuan.
A operação, que vem sendo planejada pelo Tesouro Nacional há dois anos, deve ser anunciada durante viagem oficial do ministro da Fazenda, Dario Durigan, a Pequim e Xangai, entre 24 e 26 de junho, segundo antecipou a Reuters na semana passada.
O ministro confirmou a informação na quarta-feira (10), durante a 7ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o “Conselhão”. “O mundo olha para o Brasil como uma grande casa de oportunidade”, afirmou Durigan.
Ainda que bastante restrito, o movimento se soma a outras medidas de “ desdolarização ” da economia brasileira adotadas no atual mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que vem sendo mal recebido pelos Estados Unidos.
Em janeiro de 2023, primeiro mês da atual gestão, Lula sugeriu, durante visita a Buenos Aires, a possibilidade de uma moeda comum para os países do Mercosul e do Brics.
Dois meses depois, o governo anunciou um acordo com Pequim para transações comerciais sem o uso do dólar americano como intermediário, em câmbio direto entre real e yuan.
Procurado pela Gazeta do Povo , o Ministério da Fazenda não informou quanto pretende captar com a venda dos títulos nem deu detalhes sobre os ativos, como taxa de juros e prazos de vencimento.
Emissão de títulos em yuan é estudada pelo Tesouro Nacional desde 2024
A ideia do governo de emitir títulos de dívida externa sem usar o dólar não é recente. No Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2024, publicado em janeiro daquele ano, o Tesouro Nacional já informava que considerava “adaptar suas atuações de modo a estar alinhado às melhores práticas de gestão de dívida e avaliar, inclusive, oportunidades de emissões em outras moedas”.
Em novembro do mesmo ano, a então secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito, afirmou, em evento com empresários chineses em São Paulo, que já havia estudos do Tesouro para a emissão dos títulos em yuan.
Em junho do ano passado, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, reforçou que estudava a emissão de títulos na moeda chinesa. “Há uma curva de aprendizagem e um custo de captação que está sendo estudado”, disse, em entrevista à Bloomberg .
Estratégia visa diversificar fontes de financiamento da dívida externa
A intenção ao utilizar “panda bonds”, como são chamados os títulos emitidos por empresas ou governos em moeda chinesa, seria diversificar o perfil da dívida brasileira. Ao mesmo tempo, a medida visa dar uma referência para empresas que desejam realizar operações semelhantes, disse Ceron na ocasião.
Antes do governo, a empresa brasileira Suzano, do setor de papel e celulose, foi pioneira na América Latina nesse tipo de operação ao lançar, no fim de 2024, R$ 960 milhões em títulos em moeda chinesa.
Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, a iniciativa é positiva. Além de compor uma estratégia de diversificação, ela também abre acesso a uma nova base de investidores asiáticos. “A China é um grande parceiro comercial brasileiro. Nada mais justo do que ter também parceria em outras frentes”, diz.
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Atualmente, 3,8% da dívida pública federal corresponde a títulos externos, com exposição à variação cambial. “O Tesouro já manifestou a intenção de elevar essa participação para em torno de 7% ao longo da próxima década”, lembra Marcos Vinícios Oliveira, analista da ZIIN Investimentos.
“Ou seja, a emissão em yuan não parece ser um movimento isolado, mas, sim, parte de uma estratégia mais ampla de diversificação das fontes de financiamento do governo”, explica.
Em abril passado, o Tesouro já deu um passo nesse sentido ao emitir títulos em euro pela primeira vez em 12 anos. Voltados ao mercado europeu, os papéis somam € 5 bilhões . O volume final da captação configurou a maior emissão de títulos internacionais da história do Brasil.
Na ocasião, chamou a atenção o fato de 9% dos investidores participantes serem asiáticos. Para o Tesouro, os resultados com alta demanda, elevado volume e spreads baixos refletiram “a percepção favorável do mercado internacional quanto à credibilidade do país”.
Títulos da dívida em yuan trazem riscos e são anunciados em meio a pressão americana
Oliveira ressalta, no entanto, que há riscos a serem considerados. “O principal deles é cambial: o governo arrecada impostos em reais, mas passa a ter uma obrigação denominada em yuan. Então, se a moeda chinesa se valoriza ao longo do tempo frente ao real, o custo efetivo aumenta”, diz. “É o mesmo risco quando o país emite a dívida em dólar”, explica.
O mercado em yuan, no entanto, tem menor liquidez e profundidade do que o da moeda americana, acrescenta ele. “Embora a China seja a segunda economia do mundo, o yuan tem uma participação pequena no sistema financeiro internacional”, aponta o analista da ZIIN Investimentos.
Enquanto o dólar representa cerca de…
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