Por aqui, nada se passa e o verdadeiro Mundial fica a qualquer coisa como 300 quilómetros – na fronteira com o México. Numa cidade sem futebol, Portugal também fugiu ao futebol. Foi para não destoar.
A FIFA pode querer pôr o Mundial em Houston, mas não pode pôr Houston no Mundial. Na cidade texana onde Portugal já jogou com o Congo – e onde jogará com o Uzbequistão – não parece existir Campeonato do Mundo e a chuva forte que tem caído já fez mais barulho do que adeptos animados com futebolices.
Por cá existem prédios, avenidas largas, transportes públicos, empresas, cafés e tudo o que habitualmente existe numa cidade – no caso, uma cidade demasiado grande e dispersa para ser tomada por um evento. Acima disso: uma cidade demasiado eficiente para sofrer o mínimo caos.
Houston não está em modo Mundial, está em modo Houston. E isso não tem de ser mau: para quem cá vive, possivelmente é excelente.
Em restaurantes e hotéis continua a ser possível pedir uma mesa ou um quarto sem especial problema e, em certa medida, até há qualquer coisa de especial numa cidade que recusa entrar em histeria só porque a FIFA e o futebol decidiram cá vir.
O Mundial não interrompe rotinas e ocupa, no máximo, um ecrã de televisão num bar com um ar demasiado frio – e com ar condicionado também demasiado frio.
Nem os preços parecem estar inflacionados pela presença da “estrangeirada” no Mundial – e faz sentido, porque os únicos que parecem cá estar são os que cá estão sempre.
Há excepções. Uma chama-se Cristiano Ronaldo . A saída de Portugal do hotel conseguiu aquilo que a FIFA tem tido dificuldade em ter: uma aglomeração espontânea nesta cidade por conta do futebol – neste caso, por conta do mediatismo, que futebol talvez já não seja o que melhor sai dos pés do capitão.
A outra excepção é o FIFA Fan Festival, local restrito para festarola criado pela organização. E ele já cumpriu a sua função, pelo menos num dos dias: houve pessoas, ecrãs e música suficientemente alta para ninguém reparar na ausência de Mundial no resto da cidade. Mas, nesse dia, houve jogo do México. E os mexicanos, até pela proximidade ao Texas, resolvem, sozinhos, qualquer problema de ambiente.
Em rigor, o Mundial ficou ali a qualquer coisa como 300 quilómetros – na fronteira com o México. Do que vi na Cidade do México, primeiro, e do que vi em Houston, agora, há um contraste claro entre uma cidade na qual acontecem coisas e outra na qual funcionam coisas. Houston é uma cidade que tem pessoas, enquanto na capital mexicana são as pessoas que têm a cidade.
Por lá tínhamos funcionários de hotéis e restaurantes vestidos com camisolas da selecção local. Até patos caminhavam pelas ruas vestidos a rigor . Havia barulho e havia trompetes a iniciarem cielito lindo a toda a hora. Havia festa conjunta em sociedades coreano-mexicanas criadas no momento. Havia tequila. E dança. Havia excessos. No fundo, havia salero .
Em Houston, não há salero – nem sequer sal. E a cidade dificilmente poderia estar mais insossa.
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