O vĂdeo segue a praxe das redes sociais, em que Ă© preciso capturar a atenção da audiĂȘncia frenĂ©tica em dois ou trĂȘs segundos: começa com um meme. âPOV: vocĂȘ resolve dormir Ă s 20h30 porque nĂŁo recebeu aquela mensagemâ â e a imagem Ă© de um jovem se revirando na cama. Corta a cena e o jovem, na verdade, Ă© um âpsiâ â como tantos se autodenominam nesse universo que outrora pensamos que seria a ĂĄgora da idade pĂłs-moderna e hoje Ă© apenas uma mistura de propaganda, desinformação e manual de existĂȘncia â que fala pra cĂąmera e explica: a ansiedade de esperar âaquelaâ mensagem trata-se de âhipervigilĂąncia emocionalâ.
E reflete, listando outros sintomas dessa condição, como perda de apetite e dificuldade de concentração: serĂĄ que o problema Ă© nĂŁo ter recebido a mensagem, ou serĂĄ o medo que vocĂȘ sente de ter sido esquecido ou rejeitado? VocĂȘ estĂĄ vivendo num cĂrculo vicioso, em que receber a tal mensagem gera alĂvio, e nĂŁo recebĂȘ-la tira sua paz? Isso Ă© hipervigilĂąncia emocional.
Tomando meu cafĂ© amargo de todos os dias, sinto como se meus quarenta anos tivessem virado oitenta e respondo em voz cansada: âNĂŁo, jovem. O nome disso Ă© estar apaixonadoâ. âĂ o velho amor ainda e sempreâ, como cantou o mineirinho Samuel Rosa nos anos 1990. Ă âo que cantam os poetas mais delirantesâ (Chico Buarque), âa coisa que machuca tantoâ, nas palavras do SĂł Pra Contrariar. Ă o que fez chorar Noel Rosa e Ălvares de Azevedo e o que fez Ăngela Ro Ro pedir: ânĂŁo chegue na hora marcadaâ. Porque se apaixonar, jovens, incomoda.
âA paixĂŁo Ă© disruptiva e nĂŁo combina com manter o foco nem com preservar a sua paz. Lembro de uma conversa que tive com uma amiga que, do alto dos seus 50 e alguns anos, estava lĂĄ, de novo, apaixonada. Sem fome, sem sono, queimando a comida, sorrindo pro celular. Sem saber se era correspondida na mesma medida â o eterno receio do apaixonado. Reclamou de tudo isso e, no fim, disse: âMas o comichĂŁo Ă© bom, nĂ©?â. E Ă©. Aquilo que importamos do inglĂȘs e hoje chamamos de âborboletas no estĂŽmagoâ, aquele frio na barriga, aquela sensação que (quase) todo mundo sabe qual Ă© (e quem nĂŁo sabe, desejo do fundo do coração que chegue sua hora): Ă© paixĂŁo. Mas me parece que tem muita gente querendo transformar em sintoma ou em condição. Apego ansioso. DependĂȘncia emocional. HipervigilĂąncia. Etcetera.
âE eu sei que aqui devo fazer um disclaimer , mesmo um tanto a contragosto, nĂŁo apenas porque nĂŁo quero ser cancelada, mas tambĂ©m porque nĂŁo quero magoar ninguĂ©m. Ă claro que existem condiçÔes e sintomas psĂquicos que devem ser observados com cuidado. E sim, recomendo a todos que façam terapia e busquem o equilĂbrio emocional. Mas a que me refiro nesse texto nĂŁo Ă© isso. O meu medo Ă© que estejamos tentando aprisionar e medicalizar a paixĂŁo (âque dĂĄ dentro da gente e que nĂŁo deviaâ), numa busca por uma suposta estabilidade emocional que me parece mais uma estratĂ©gia do capital para nos tornar cada vez mais obedientes consumidores e trabalhadores. Funcionais. E a paixĂŁo, meus caros, nĂŁo Ă© funcional.
âPor isso, ainda que tomando meu cafĂ© amargo e sem grandes perspectivas para este Dia dos Namorados, peço aos jovens que escutem mais os conselhos de Paulinho da Viola ( Ame, seja como for/ Sem medo de sofrer ) e menos os dos coaches e psis da internet. Porque, como diria nossa eterna MarĂlia Mendonça, â todo mundo vai sofrer â. Mas se nĂŁo, que graça tem?
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EP 220
Da bolha Ă nĂ©voa mental: a disputa polĂtica nas redes sociais â com LetĂcia Cesarino
12 de junho de 2026
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A antropĂłloga LetĂcia Cesarino analisa como o ambiente digital estĂĄ transformando a percepção das pautas polĂticas
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3 reports
Folha de S.PauloIndependentCenter2 days ago Brazil leads engagement on Instagram among World Cup teamsThe Brazilian national football team's Instagram profile has the highest engagement among the 48 teams participating in the World Cup, according to data from mLabs, a social media analytics platform. The account managed by the Brazilian Football Confederation (CBF) has maintained top engagement since January 1st, five months before the tournament began. Brazil's account has approximately 7,082.47% engagement since the start of the year, significantly higher than Mexico and Portugal, which rank second and third. Brazil also has the most followers (24 million) and the highest number of likes (51
Bias read (Center): The article presents factual data on social media engagement metrics without apparent ideological framing or bias. It focuses on quantifiable performance indicators such as follower count, engagement rates, and likes, with no overtly positive or negative commentary on the subject matter.
Folha de S.PauloIndependentCenter4 days ago He's got an algorithm hoping his relationships will end.The article discusses concerns about social media algorithms influencing personal relationships by promoting content that may exacerbate conflicts rather than resolve them. It suggests that platforms prioritize engagement through friction and conflict, potentially leading users to question their own intuition when it aligns with algorithmically reinforced narratives.
Bias read (Center): The article presents a general concern about social media algorithms without taking a clear ideological stance. The framing is analytical and does not favor any particular political perspective.
AgĂȘncia PĂșblicaIndependentCenter8 days ago A record of Valentine's DayThe article discusses emotional hypervigilance in the context of modern relationships, using social media content as an example. It explores the anxiety associated with waiting for messages from a romantic partner and reflects on whether this behavior stems from fear of being forgotten or rejected. The piece references cultural figures like Samuel Rosa, Chico Buarque, and Noel Rosa to highlight the enduring nature of love and its emotional impact.
Bias read (Center): The article focuses on psychological and emotional topics related to modern relationships without taking a political stance or showing bias toward any political ideology. It uses cultural references and personal reflection rather than presenting arguments or opinions aligned with specific political,