Se é pacífico para todos os chefes de Estado e governo da União Europeia que o bloco deve estar sentado à mesa e participar activamente nas negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia, as “démarches” de António Costa para “abrir canais de comunicação” entre Bruxelas e Moscovo expuseram um fosso entre os líderes que veio comprometer a imagem de unidade no seio do Conselho Europeu .
A iniciativa do presidente do Conselho Europeu, que há muito defende que a UE se deve preparar para discutir a futura arquitectura de segurança europeia com a Rússia, foi lida não como um esforço de “coordenação” de esforços com a Ucrânia, como justificaram as suas porta-vozes, mas antes como uma tentativa desastrada de Costa para se posicionar como o emissário e representante do bloco no processo diplomático, até agora liderado (sem sucesso) pelos Estados Unidos da América.
Depois de o líder norte-americano, Donald Trump, ter dito que vai voltar a dedicar-se ao assunto , depois de ter assinado um memorando de entendimento para o fim da guerra no Irão, o Presidente da Ucrânia veio ao Conselho Europeu apelar mais um a vez a um maior envolvimento da UE nas negociações.
“É preciso manter a pressão para trazer Putin para o diálogo”, disse Volodymyr Zelensky, uma declaração que tanto foi interpretada como um pedido para o reforço das sanções para debilitar a Rússia e isolar Putin, como um reconhecimento das acções de Costa para abrir uma linha de comunicação com o Kremlin – ao arrepio da actual política oficial da UE, que cortou as ligações diplomáticas com Moscovo logo após a invasão em larga escala da Ucrânia.
A discussão sobre a Ucrânia prolongou-se por mais de quatro horas – as primeiras duas com Zelensky na sala, e as outras só a 27, sem telemóveis na sala ou reporte directo para as delegações – e o que emergiu no final foram relatos desencontrados e mesmo contraditórios sobre o teor das intervenções, e das conclusões, conforme as posições individuais dos Estados-membros.
Genericamente, parece ter existido um apoio alargado à abordagem preliminar do presidente do Conselho Europeu a responsáveis diplomáticos russos, e para um eventual papel de António Costa quando o processo negocial for reatado. Porém, entre as vozes dissonantes terão estado os líderes da Alemanha e da França: os dois países compõem, com o Reino Unido, o chamado E3, que já encetou os seus próprios contactos com Moscovo.
O chanceler germânico Friedrich Merz – que convocou uma reunião com os parceiros do E3, mais a Itália e a Polónia (E5) para a próxima semana – terá manifestado alguma “relutância” e mesmo “desagrado” com uma eventual transferência da diplomacia trilateral para Bruxelas. E aparentemente, o Presidente de França, Emmanuel Macron, também não se terá mostrado entusiasmado com a ideia.
“Em primeiro lugar, nos termos dos tratados, é o presidente do Conselho Europeu que representa a União em qualquer processo de negociação, mas ainda há um longo caminho a percorrer até lá, uma vez que não há quaisquer indícios de que a Rússia esteja disposta a sentar-se à mesa”, apontou o primeiro-ministro da Irlanda, que em Julho assumirá a presidência do Conselho da UE.
Para Micheál Martin, “estabelecer canais de comunicação, especialmente tendo em conta o nosso próprio historial na resolução de conflitos, não é nada que nos preocupe”, acrescentando que “confia” no ex-primeiro-ministro português. “Ele é muito claro ao afirmar que a Europa não assumirá o papel de mediadora”, disse, lembrando que a UE não é uma observadora independente uma vez que apoia uma das partes no conflito.
Segundo o chanceler austríaco, Christian Stocker, “não houve críticas dirigidas a Costa”. Os líderes concordaram que “é importante estar preparado e dispor dos canais adequados para, quando chegar o momento em que as negociações tenham início, a UE possa defender os seus interesses nessas negociações”, mas também que “este não é o momento certo, porque Putin não está disposto a participar”, repetiu.
Por maior optimismo que exista agora relativamente ao desempenho das forças ucranianas no teatro de guerra, e a posição de Kiev nas negociações de paz, é certo que essas conversações (ou simulacro de) não vão ser retomadas já amanhã. Mais do que a questão de falar ou não com a Rússia, e de quem deve ser o interlocutor, o que interessa aos líderes do Conselho Europeu é coordenar a mensagem que querem transmitir a Putin.
“Temos de pressionar a Rússia a sentar-se à mesa das negociações, com mais sanções, e não discutir quem irá conduzir estas negociações em nome da UE”, defendeu o chefe do Governo dos Países Baixos, Rob Jetten, que não escondeu o seu desagrado por não ter sido previamente informado sobre os contactos efectuados pelo gabinete de Costa. “Se Putin estiver disposto a negociar, a UE está pronta para discutir as garantias de segurança de que necessitamos, e o futuro das relações entre a UE e a Rússia”, assegurou.
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