Um elefante na sala. É assim que representantes da UE (União Europeia) se referem à China —muitas vezes sem nomear a nação— quando o assunto é transição energética, minerais estratégicos e terras raras , setores nos quais o país asiático é dominante no mundo.
Nas últimas duas semanas, a Folha conversou com diplomatas brasileiros e da Comissão Europeia que trabalham diretamente com o assunto. O diagnóstico é unânime: o continente europeu está ficando para trás de China e Estados Unidos na corrida por estes insumos, essenciais ao desenvolvimento de novas tecnologias.
É para tentar mudar este cenário que uma delegação europeia desembarca em São Paulo nesta quinta-feira (18).
A Europa investe cada vez mais em energias renováveis e carros elétricos, o que a torna dependente de outros países para abastecer sua indústria.
"O objetivo final da Comissão [Europeia] é apoiar a indústria europeia e diversificar as fontes essenciais para as transições digitais e de energia, e não repetir os erros que tivemos no passado", diz Cristina Lobillo Borrero, diretora de segurança energética e relações internacionais do departamento de energia.
A comitiva será liderada por Jozef Síkela, comissário para parcerias internacionais da UE. A visita começa em São Paulo, onde o grupo deve almoçar com empresários e visitar as obras da linha 6 do metrô —realizadas em parceria com o Global Gateway, programa de investimentos do bloco econômico focado em parcerias estratégicas com outros países.
É dentro deste programa que os europeus avaliam a possibilidade de investir na exploração de minerais estratégicos e terras raras no Brasil. Inicialmente foram prospectados nove projetos com potencial para isso, dos quais quatro acabaram selecionados para prosseguir com tratativas.
Segundo integrantes do bloco europeu ouvidos sob reserva pela Folha , o objetivo da comitiva é terminar a viagem com um protocolo ou um memorando de intenções assinado com o Brasil, algo que integrantes do Itamaraty avaliam, por enquanto, como pouco provável, apesar de já haver um texto sob negociação em nível técnico.
A principal exigência é que exista a previsão de beneficiamento e desenvolvimento da indústria nacional. Europeus, por sua vez, querem ter o continente como destino dos produtos, de acordo com diplomatas brasileiros.
Um dos candidatos a investimento fica em São Miguel Paulista, em São Paulo. Uma refinaria de níquel controlada pela australiana Jervois e que, em 2025, foi enquadrada como estratégica pela União Europeia , o que significa que está no radar do bloco econômico, com prioridade.
Outro é um projeto de terras raras da também australiana Viridis em Poços de Caldas (MG), que receberá visita da comitiva da UE durante essa viagem.
Além destes, os europeus também estão de olho em uma empresa no Piauí para exploração de cobalto e outra de lítio, em Minas Gerais.
Também estão previstas participações em fóruns de investimento no Rio de Janeiro e em Brasília, além de encontros com ministros do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Atualmente, a União Europeia já tem protocolos semelhantes assinados com Chile e Argentina .
O Brasil, porém, é o país sul-americano com maior reserva de minerais críticos e terras raras.
Hoje, enquanto a China domina o mercado mundial e atua no Brasil, os Estados Unidos crescem nesta corrida. Desde 2025, já anunciaram a compra de uma empresa em Goiás, por US$ 2,8 bilhões, e assinaram um acordo comercial com o governo goiano.
A dependência europeia com relação à China para energias renováveis e eletrificação chega a 100% em alguns materiais, como o silício, usado nas placas de geração solar.
Embora a América Latina concentre parte importante das reservas mundiais de lítio, cobre e outros insumos estratégicos, as etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva (processamento e fabricação dos produtos finais) seguem concentradas na Ásia .
Por isso, autoridades europeias defendem uma estratégia que combine acesso a matérias-primas com o desenvolvimento de capacidade industrial nos países produtores.
A ideia é que projetos apoiados pela União Europeia não se limitem à extração, mas contribuam para a instalação de atividades de processamento, fabricação de componentes e outras etapas industriais na própria região —ou seja, de maneira geral, fortalecer alternativas à produção chinesa.
Sob a ótica geopolítica, após a crise energética provocada pela guerra na Ucrânia, ganhou força entre os europeus a preocupação com a concentração de fornecedores em setores considerados estratégicos.
Iniciativas voltadas ao lítio, cobre e terras raras passaram desde então a ocupar posição central nas conversas entre a União Europeia e países do Mercosul —na esteira da recente assinatura do acordo comercial entre os dois blocos.
As autoridades avaliam que a Europa está disposta a financiar projetos, mas busca associar as novas cadeias produtivas ao mercado europeu, para diversificar fornecedores, reduzir riscos de concentração…
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