Para Felipe, a piscina de seu condomínio é uma espécie de inferno pessoal. Embora adore nadar, o adolescente foge de qualquer possibilidade de usar roupa de banho. Ele, afinal, é alvo na escola de insultos homofóbicos e comentários maldosos sobre seu peso. Por isso, não vê a hora de entrar de férias para se trancar dentro do quarto e escapar das humilhações. Existe, porém, um empecilho a esse plano.
A mãe do adolescente decidiu hospedar Caio, o filho dos vizinhos, no apartamento enquanto os pais do jovem viajam. Contrariado, Felipe não faz nenhuma questão de ser simpático com o hóspede. No entanto, a hostilidade dá lugar ao afeto à medida que os dois se aproximam. É com a leveza dos romances adolescentes que o filme "Quinze Dias" chega aos cinemas do país nesta quinta-feira (18).
O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome lançado pelo escritor Vitor Martins em 2017. Desde então, o romance vendeu cerca de 100 mil exemplares, conquistando um séquito de fãs que se identificam com os dramas vividos pelo protagonista.
Diretor da produção, Daniel Lieff diz que foi um desafio adaptar um livro que permeia a memória afetiva de tanta gente. "Requer muitos cuidados e requer coragem também, porque eu acho que é preciso ousar e pensar fora da casinha."
Uma dessas ousadias foi a introdução de uma cena não prevista no livro. Nela, Caio e Felipe batem em homofóbicos que ameaçavam os dois. Logo depois, escapam da fúria do bando pulando em um veículo cintilante da carreta furacão —animadores de festas que se popularizaram Brasil afora nos últimos anos. A cena provoca riso por acontecer de modo inesperado e quase surrealista.
Outra mudança em relação ao romance se deu no modo como a história é narrada. "O livro se passa muito dentro da cabeça do Felipe e em primeira pessoa. Mas não queria um filme com narrações intermináveis."
O longa, no entanto, preservou as principais características do protagonista—um adolescente tão encantador quanto voluntarioso.
Intérprete do jovem no filme, Miguel Lallo diz que construiu o personagem tendo como referência a própria adolescência. "Para encontrar o tom, olhei para quem eu fui. Lembro também que, quando eu li o livro, a identificação foi muito imediata."
Assim como acontece com o personagem, Lallo já teve que enfrentar a gordofobia. Quando o trailer do filme foi divulgado, internautas usaram as redes sociais para criticar a aparência física do ator.
"Eu me surpreendi. A gente sabe que gordofobia e preconceitos existem, mas não imaginava que era um ódio tão grande", diz o artista. "Mas a terapia em dia ajuda a entender que, quando a pessoa comenta esse tipo de coisa, é mais sobre ela do que sobre mim."
No filme, o personagem de Lallo também encontra amparo na terapia. Durante as sessões, o personagem dá vazão à avalanche emocional típica da adolescência. Esse turbilhão só se acentua quando o jovem se apaixona por Caio, o tal vizinho interpretado por Diego Lira.
Num primeiro momento, o personagem lembra um dos valentões que oprimem o protagonista na escola. Aos poucos, porém, ele se revela alguém empático, sensível e amoroso. Para compor o personagem, Lira usou como referência o livro que deu origem ao filme.
"Ele é a fonte inesgotável de tudo no que a gente se baseou para construir esses personagens. Além disso, o roteiro trouxe muita coisa nova que nos ajudou", diz o ator. Para ele, embora seja um romance adolescente, o filme não mostra apenas uma realidade açucarada.
Ao lado da estética solar e dos diálogos bem-humorados, a violência do preconceito parece estar sempre à espreita.
"A gente coloca as cartas na mesa e mostra o que realmente acontece. Não vai ser um mar de rosas, não vai ser uma historinha encantada, porque não é assim que acontece", afirma o artista. "Mas eu acho que isso é tratado no ponto certo para não passar e se tornar algo pesado."
Opinião parecida tem Débora Falabella , que dá vida à mãe de Felipe na produção. "Não é porque o filme é leve que ele não seja profundo." No passado, a densidade de filmes com temática LGBTQIA+ esteve muito relacionada ao sofrimento de seus personagens. Não à toa, era comum que a morte separasse casais homoafetivos no final das tramas.
No entanto, esse gênero vem sendo renovado com produções que jogam luz sobre assuntos sérios sem ter enredos trágicos. Exemplo disso são filmes como "Carol", de 2015, e "Com Amor, Simon", de 2018, ou séries como "Heartstopper", lançada em 2022. Ao chegar aos cinemas nesta quinta, "Quinze Dias" engrossa essa tendência.
"Ele não põe uma tragédia no final", diz Falabella. "Acho que isso é muito importante hoje em dia, principalmente para um público jovem."
Autor do livro que inspirou o filme, Vitor Martins faz coro a essa avaliação. "A gente queria fazer uma história com possibilidade de felicidade. Desde quando escrevi o livro até hoje, sigo isso muito fielmente na minha carreira. Quero dar aos meus gayzinhos os finais felizes que eles merecem."
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