“Chegava na esquina da escola onde trabalhava e sentia tonturas e dores no estômago. A pressão disparava e minhas pernas se recusavam a dar o próximo passo”, conta uma professora que é moradora do Conjunto Habitacional Sítio Conceição, em Cidade Tiradentes , no extremo leste de São Paulo.
Ela lecionou por 14 anos no ensino infantil em escolas públicas e particulares e que preferiu não se identificar por medo de represálias. Casos como esse estão longe de ser isolados.
Só na Grande São Paulo, foram registrados quase 37 mil casos de afastamento de professores por questões de saúde mental, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados se referem apenas à rede estadual e são o equivalente a 58 profissionais fora das salas de aula por dia, por causa desse desgaste.
As informações são da Diretoria de Perícias Médicas e foram obtidas pelo CPP (Centro do Professorado Paulista), por meio da LAI (Lei de Acesso à Informação).
Correspondentes da Agência Mural de Embu das Artes e Itapecerica da Serra, da Grande São Paulo, Cidade Tiradentes, na zona leste, e Jardim São Luís , na zona sul de São Paulo, ouviram professores da rede pública sobre a situação.
Eles relatam jornadas diárias de 10 a 12 horas, baixos salários, violência física e moral, infraestrutura precária e cobrança excessiva por resultados estão entre os principais fatores que contribuem para o adoecimento de educadores nas periferias.
Professores no limite
“Quando eu me aproximava da escola, minha frequência cardíaca disparava”, relata o professor de educação física Sílvio Benedito, 60, morador do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo.
Ele atua há cerca de 22 anos na escola municipal Edvaldo dos Santos Dantas e foi diagnosticado, em 2024, com ansiedade e depressão, quadro associado à síndrome de burnout, ligada ao esgotamento físico e emocional provocado pelo trabalho.
Acordava já com o peso de saber que chegaria ali e encontraria tudo aquilo que me adoecia. Quando recebi o diagnóstico, fiquei assustado. Imagina: um professor de educação física com depressão
Silvio
Professor na zona sul de SP
Em Itapecerica da Serra , na Grande São Paulo, a professora Talita da Silva Vitoriano Leal, 35, também enfrentou o adoecimento mental ligado ao trabalho.
Docente há 14 anos no município, precisou se afastar por 10 meses para tratar de dois problemas: um pólipo nas cordas vocais (são lesões que surgem nas pregas vocais semelhantes a pequenas bolhas ou tumores não benignos) e o TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada).
“Em 5 de agosto de 2024 perdi a voz, fiquei 45 dias totalmente afônica, não saía nada. Fui de atestado em atestado, no primeiro o médico me deu 10 dias, voltei a trabalhar, mas não consegui retomar as atividades porque a voz não saia”, conta.
Talita leciona nas escolas E.E. Dr. Honório Monteiro e EMEF Acácia e relata que a rotina em busca de tratamento não foi fácil, porque precisou fazer vários exames. Em outubro de 2024, ela encaminhou o pedido de readaptação para as secretarias municipal e estadual, mas só conseguiu no município.
Sala de aula do 2° ano do fundamental II, escola estadual Dr Honório Monteiro localizado no bairro Chácara Sonho Azul
Talita, ao retornar da licença, não imaginava que o corpo entraria em colapso com o ambiente escolar. “Não sei o que aconteceu, se eu saí correndo, se eu gritei ou passei mal. Só sei que acordei na secretaria, com os meus colegas me chamando, e já ligaram para o meu marido”, diz. Ali manifestou o transtorno de ansiedade.
Ao retornar ao colégio após sofrer a crise de ansiedade, a educadora detalha que ficou atônita ao faltar o ar, e outros sintomas como crises de choro.
Quando o sinal tocou ao retornar do intervalo, não cheguei nem na porta. Tive uma crise de pânico no meio do corredor
Talita
Educadora em Itapecerica da Serra
Na escola Acácia ela foi readaptada e assumiu as funções administrativas com a mesma carga horária e sem contato direto com alunos mas na escola EE Dr. Honório Monteiro suas funções eram as mesmas e a todo momento seu pesadelo diário em ter que continuar lecionando.
O processo de readaptação de professores é um direito garantido por lei para docentes que enfrentam restrições físicas ou mentais que os impedem de exercer suas funções habituais e assegura-se a manutenção da remuneração carga horária adequada, progressão na carreira e o direito à aposentadoria especial.
Sílvio, por sua vez, permaneceu seis meses longe das atividades após ser intimidado por uma pessoa em situação de rua que ocupava a quadra da escola durante uma das aulas. Ao retornar ao trabalho, os professores lembraram de enfrentar crises de ansiedade ainda nos primeiros dias.
“A escola era muito aberta. No fim de semana, muita gente usava o espaço como se fosse um clube. Tinha que recolher de tudo: desde preservativo até espetinho de churrasco”, conta Silvio.
“Sempre reclamava, mas diziam que ‘na periferia é assim mesmo’”, relembra. “Eu respondia que trabalho na periferia desde que me conheço…
Read the full article at Agência Pública →