“Nós investimos e não temos um horizonte, não é a cinco e a dez anos. Temos objectivos, mas trabalhamos a longo prazo, num horizonte longínquo”: Jacques Beyssade, secretário-geral do grupo francês BPCE , sintetizou assim o compromisso com Portugal, onde está com o centro de competências da gestora de activos Natixis , que recentemente se expandiu do Porto para Lisboa , e que acabou de comprar o Novo Banco .
Com cerca de quatro mil trabalhadores, o Novo Banco passou recentemente para mãos francesas, para um grupo que tinha já mais de três mil funcionários no país.
Já com cerca de dez mil trabalhadores, o BNP Paribas é o principal empregador da banca em Portugal, tendo sido o grande responsável por contrariar a tendência de quebra de trabalhadores no sector. A gestora da bolsa de Lisboa, a Euronext , ainda recentemente cresceu no Porto, contando com 500 trabalhadores.
Estes são três exemplos de investimento francês em Portugal, que ocorre por parte de 1700 filiais de empresas que criaram 130 mil postos de trabalho, segundo dados transmitidos pelo estudo Por Uma Europa mais Competitiva – O contributo da parceria franco-portuguesa , promovido pelos conselheiros do comércio externo de França, e divulgado nesta sexta-feira, 19 de Junho, em Lisboa, e onde esteve o responsável do BPCE.
O investimento directo estrangeiro de França em Portugal é de 18,8 mil milhões de euros, sendo o segundo país europeu nesta listagem, apenas atrás de Espanha, no que diz respeito à contabilização feita por via do investidor final (“o país que, em última instância, assume o risco e beneficia de um dado investimento”, como contabiliza o Banco de Portugal ). França é o segundo maior destino das exportações portuguesas, bem como o terceiro fornecedor comercial.
O que o estudo conclui é que Portugal não é só um país que compete por investimento estrangeiro por via dos custos baixos: “As empresas concentram aqui funções de engenharia, decisão, tecnologia e competências que têm relevância estratégica para os seus perímetros europeus.” Além dos centros de competências, que prestam serviços a todo o grupo no BNP Paribas, na Natixis e na Euronext, “na indústria aeronáutica, a Airbus estima que um quarto da sua produção global de subconjuntos aeronáuticos seja fabricado em Portugal já em 2026”, contando com 1300 trabalhadores.
“Temos um conjunto vasto de grandes projectos que são absolutamente transformadores”, foi o que disse o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento , na conferência, mencionando o “peso extraordinário” das empresas portuguesas. A francesa Air France-KLM é uma das duas finalistas na compra da transportadora aérea TAP, a competir com a alemã Lufthansa.
Segundo as conclusões a que o estudo chegou, há três dimensões que justificam o interesse nacional para as empresas francesas: a situação do país (“segurança, estabilidade e abertura atlântica”), as pessoas (“talento, adaptabilidade, resiliência e qualidade de vida”) e a plataforma (“energia, infra-estruturas e mercado de teste”).
De qualquer forma, e segundo a mesma fonte, as funções de execução ainda têm mais peso do que a concepção no país, e Portugal tem ainda uma presença muito mais limitada em França do que a relação em sentido inverso: Portugal está entre os 25 países com investimento directo estrangeiro em França, com apenas 3,2 mil milhões de euros, mais de cinco vezes menos que as aplicações francesas em Portugal. A Renova, Visabeira e recentemente a Brisa são empresas com investimento no país, bem como a Tekever . É uma relação com mais espaço para crescer.
Aliás, na sua intervenção, o responsável do BPCE revelou que, desde que comprou o Novo Banco, já foi contactado por empresas portuguesas interessadas em investir em França, uma relação que, de acordo com o estudo, tem ainda potencial por concretizar.
Os responsáveis pelo estudo agora apresentado acreditam que há espaço para maior união da economia dos dois países, nomeadamente na transição energética (Sines com infra-estrutura para pôr Portugal como uma “plataforma digital e energética de escala europeia”) e na densificação de conjuntos sectoriais de indústria e engenharia (“falta transformar essa presença em ecossistema”). Mas os franceses também acreditam na “actuação conjunta” em mercados terceiros, “nomeadamente lusófonos”.
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