Sites de apostas clandestinos que atuavam sob licença irregular emitida pela Prefeitura de Bodó, cidade de 2.363 habitantes no Rio Grande do Norte, foram alvo da Receita Federal e dos Ministérios Públicos de Pernambuco e do Rio Grande do Norte nesta quinta-feira (18).
Ao longo de dez meses, a LotSeridó, loteria criada pelo município de Bodó, licenciou 37 sites e arrecadou R$ 8,3 milhões em taxas, segundo o MP. O volume indica uma receita declarada de R$ 415 milhões para as casas de apostas investigadas.
A Receita Federal estima, contudo, que os crimes cometidos pelas empresas deixaram um prejuízo de R$ 145 milhões para a população e para a União. "Essas empresas apresentaram movimentação financeira de bilhões de reais, e o valor exato será revelado com os dados coletados nas buscas, apreensões e quebras de sigilo", informou o Fisco em nota.
As autoridades investigam fraudes contra o consumidor, movimentação financeira incompatível com rendimentos declarados, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro por meio da compra de imóveis e ausência de repasse sobre a receita líquida dos jogos —obrigação prevista na legislação federal de apostas. Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em Pernambuco, no Ceará e em São Paulo.
A Folha tentou contato com a Prefeitura de Bodó pelo telefone indicado no site oficial da administração, mas o número informado não existe. O email enviado à ouvidoria não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. O prefeito José Horizon (PL-RN) também foi procurado por meio de sua rede social, mas não se manifestou.
Enquanto a Fazenda cobra R$ 30 milhões pela licença, além de uma taxa de 12% da receita, as cobranças em Bodó ficavam em R$ 5.000 pela papelada mais uma taxa administrativa de 2% sobre as receitas.
A LotSeridó funcionou até outubro de 2025, pouco antes de o STF (Supremo Tribunal Federal) proibir definitivamente as licenças municipais de loteria, em dezembro daquele ano. Mesmo após o veto, as empresas autorizadas por Bodó continuaram a operar sem o aval de órgãos competentes.
"O grupo investigado constituiu dezenas de empresas de exploração de jogos de azar e instituições de pagamento. Elas eram repassadas formalmente a terceiros sem capacidade econômica, enquanto o controle gerencial e financeiro permanecia com o grupo", afirmou a Receita. Parte dos supostos laranjas identificados na fraude recebeu parcelas do auxílio emergencial.
Segundo pessoas ligadas às investigações, um dos alvos da Operação Canto da Sorte é Camilo Roma de Brito, presidente da Analome (Associação Nacional das Loterias Municipais e Estaduais), entidade que faz pressão pela descentralização das licenças de apostas, hoje uma competência dos estados e da União.
Como mostrou reportagem da Folha , o próprio Brito mantinha registros de 24 sites de apostas na LotSeridó, alguns deles vinculados a endereços falsos em Bodó. À época, o empresário declarou ter apenas três plataformas. Ele afirmou que suas empresas "permanecem inativas desde sua abertura em dezembro de 2024, sem qualquer operação ou faturamento, aguardando o cenário nacional", e não explicou as irregularidades nos endereços locais.
Procurado novamente nesta quinta por email enviado à Analome às 8h50, Brito não respondeu. A Folha também tentou contato telefônico com a mãe do empresário, sem sucesso.
Brito é sócio de um filho do ex-prefeito de Bodó, Marcelo Mário Porto Filho, em um posto de combustíveis na cidade. Foi na gestão de Porto Filho que a LotSeridó foi instituída. O ex-prefeito governou o município por dois mandatos e é aliado político do atual chefe do Executivo, José Horizon.
Em outubro passado, a maior parte dos sites credenciados pela loteria municipal já havia saído do ar, especialmente os ligados a Brito. A plataforma Pinbet, porém, seguiu ativa e recebendo lances até sair do ar nesta quinta-feira.
A Pinbet, diferente de outras firmas abertas pelo empresário, registrava um endereço real: uma loja em um shopping center em Toritama (PE), centro comercial do qual Brito já foi síndico. O site operava apostas esportivas e jogos eletrônicos como o Fortune Tiger, conhecido popularmente como "jogo do tigrinho" , marcado pelo potencial de prejuízo financeiro aos usuários.
A LotSeridó deu aval não apenas a bancas do próprio município, mas também a empresas sediadas em São Paulo, Jaú (SP), São Caetano do Sul (SP), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ) e Toritama (PE).
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