A infância está cheia de mistérios; alguns, verdadeiros enigmas, porque não soubemos usar as palavras para os resolver. E permanecem, anos depois, envoltos numa bruma que não se dissipa. Serei só eu a ver essa neblina que não acaba?
Fiz de novo o caminho que me levou durante anos até casa. A velocidade do carro não é muita e consigo dizer em silêncio os nomes dos que foram meus vizinhos. Cada casa tem um nome, mais do que um. É inevitável perguntar-me se ainda estarão vivos aqueles que compuseram o puzzle da minha infância. Mas não tenho respostas. Tenho ainda menos agora.
Havia uma frutaria em frente da nossa primeira casa. É curioso como fomos os estranhos que chegaram de Lisboa para aterrar numa casa de verão e, um dia, quando tivemos uma casa só nossa, no meio do campo, voltámos a ser os estranhos que construíram uma casa nova no meio do pouco que havia entre milheirais. Mas deixo o campo, para aterrar na casa de verão que agora é um restaurante. Quantas vidas tem uma casa?
No nosso primeiro andar havia, em ferro e letra bonita, a inscrição: “O meu cantinho”. Alguém tinha chamado carinhosamente ao canto, que agora era nosso, “o meu cantinho”. Porque deixou de o ser?
A frutaria era tão suja quanto cheia. Uma confusão de caixotes vazios e outros apinhados de fruta cuja frescura não sei precisar. Eu ia com a minha mãe às compras e, já na altura, me fazia confusão a confusão dos outros, não sabendo ainda que há quem precise do caos para se organizar. Lembrei-me subitamente das ameixas cor de rubi, com um cheiro forte, doce e ácido ao mesmo tempo, mas a memória é reconfortante. A fruta, muitas vezes, apodrecia nos caixotes. As vespas faziam um cerco apertado a esse quase pomar que se oferecia aos mais atrevidos. As vespas, como todos sabemos, são destemidas e tanto lhes faz que o fruto seja proibido ou ternamente colhido. Qualquer um mais atento seria levado pelo rasto das ameixas que, quando trincadas, nos escorriam pelos cantos da boca, desaguando no queixo.
Volto à montra sem ordem: eu tinha cinco anos e lembro-me de achar estranho que a fruta se vendesse sem aprumo. Só agora percebo que, também isso, que nem era o mais importante, ficou gravado na minha memória. Porque tudo era ruído, até o que não se ouvia. Um homem e uma mulher comandavam aquela desordem. Os filhos (três, quatro?) brincavam entre os despojos do dia. O homem bebia muito. A mulher, escondida em óculos com muitas dioptrias, trazia muitas vezes a cara tão amachucada como a fruta. Eu ouvia a minha mãe lamentar profundamente os maus tratos daquela pobre mulher. E eu, criança, não percebia bem do que se tratava, mas sabia que havia dor ali no meio. E lembro-me de ir a medo à frutaria, receando que ela tivesse novas marcas na cara. Eram azuladas as marcas, como as uvas do caixote. As uvas que não chegariam a ser vinho, embora vinho não fosse coisa que faltasse lá em casa.
Numa casa onde há pancada todos sofrem com razão.
Os filhos andavam entre os caixotes da fruta, como se fosse uma sucata a céu aberto, com roupa suja e ranho que não via lenço. Era uma mãe a gerir a sua dor e o terror contínuo de viver com um homem assim. Antes apanhar ela que os filhos. É assim que muitas mulheres vivem. Lembro-me do rosto dela, inchado, escondido, triste. Só agora, adulta, percebo o que era afinal a vida daquela mulher cuja existência perturbava os vizinhos, mas não o suficiente para se meterem. Nesse tempo ainda se usava muito a expressão “entre marido e mulher, não se mete a colher”. Hoje, tentamos salvar sobretudo as mulheres, denunciando o que vemos, quando vemos. Há muita violência escondida com gritos abafados.
O carro há muito que se afastou do sítio onde existiu a frutaria triste. Gostava que alguém me dissesse que aqueles miúdos foram a tempo de ter uma infância feliz ou que aquela mulher, um dia, acordou sem as marcas das mãos brutas na cara e que o olhar deixou de ser triste. Mas nada sei sobre essas pessoas que fizeram parte do nosso dia-a-dia.
Que diabo, como é que uma frutaria pode ser triste e pesada, em vez de ser o pomar da alegria? A infância tem nomes que não chegam a ser palavras. Só os encontramos muito mais tarde e, às vezes, já traídos pela memória, não vamos a tempo de os nomear.
Ser adulta e regressar tantas vezes à infância reconcilia-me com dores que ficaram por resolver. Agora já tenho nome para lhes dar. E nomear é, muitas vezes, o princípio da resolução. A árvore da vida. Às vezes, o pomar da alegria.
O coração ainda bate.
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