O belga Serge Rangoni dirigiu o Teatro de Liège durante vinte anos e em fevereiro deste ano assumiu o cargo de diretor artístico das Artes Performativas do Centro Cultural de Belém (CCB). Na tarde desta quinta-feira (18 de junho) apresentou, em português, a temporada de 2026-2027, já com o seu cunho, embora ainda não totalmente. Serge Rangoni diz que o que o atraiu ao CCB foram as variadas disciplinas artísticas que a instituição cultural portuguesa oferece, entre teatro, música e artes visuais. Eu gosto particularmente da diversidade de linguagem que é apresentada. Isso é, para mim, um desafio, mas também uma possibilidade para convidar coisas diversas”.
O programador já conhecia o trabalho de encenadores portugueses como Victor Hugo Pontes, Pedro Penim ou Tiago Correia, mas desde que chegou a Lisboa diz que tem visto mais espetáculos e realça “a qualidade dos intérpretes, de altíssimo nível, de atrizes, de atores e de bailarinos”. Todavia, reconhece que a posição periférica de Portugal limita a oferta das instituições culturais. “Aqui estamos longe do centro da Europa, que nos permite ver mais coisas. Falta um pouco ter a possibilidade de ver propostas diferentes.”
E é aí que Serge Rangoni considera que poderá dar o seu maior contributo à instituição, atraindo a Portugal mais espetáculos do resto da Europa. O diretor artístico adianta que vai convidar programadores internacionais ao CCB e diz que "é preciso organizar melhor os tempos da programação", uma vez que noutros países da Europa, como em França, os timings são diferentes. "Às vezes chegam um pouco tarde, não funcionam".
Além disso, vai trabalhar para a criação de “uma rede de teatros mais formal” em Portugal, que inclua também Espanha e França , e já iniciou conversas sobre o tema com Mark Deputter, administrador e programador de Artes Performativas da Culturgest, com o qual partilha n~so só a nacionalidade, pois também é belga,mas também a vontade de promover sinergias.
A aproximação com outras instituições culturais pode acontecer já a partir da próxima temporada, diz Rangoni. "Vamos tentar ficar mais juntos, e depois, a rede maior, que penso fazer com a França e a Espanha. Tenho consciência da necessidade, hoje, de fazer isso. Falei com o novo colega, Matthieu Cruciani, que chegou a Toulouse, com as pessoas de Barcelona, então penso que há realmente uma possibilidade. É uma coisa simples, encontrarmo-nos três vezes ao ano, partilhar os projetos, e ver como é que podemos trabalhar."
Os custos envolvidos na circulação dos espetáculos e até a redução da atenção mediática aos mesmos também incentivam a uma maior colaboração entre instituições, diz Serge Rangoni, que começa a notar uma mudança de mentalidades. "É essencial para convidar companhias internacionais, com custos elevados é preciso trabalharmos mais juntos".
O objetivo é também pôr a circular internacionalmente mais produções portuguesas. "A nossa estratégia para apoiar as companhias e artistas portugueses assenta numa participação ativa em redes internacionais que promovem circulação, coprodução e residências artísticas. Entre elas destaca-se a Prospero New, a única plataforma de teatro apoiada pela Comissão Europeia que reúne 22 parceiros europeus e apoia a mobilidade e a visibilidade de artistas reconhecidos ao nível nacional a ser reconhecidos a nível internacional", disse o diretor artístico na sua apresentação. A peça Inimigo do Povo , de Marco Martins, é um exemplo, tendo sido coproduzida com o teatro Schaubühne de Berlim, e o Teatro de Liège.
Peças como Fumo , de Tiago Correia ou Farsa, de Catarina Miranda, têm potencial de circulação internacional, considera Serge Rangoni. A peça Exercício de Montagem, de Joana Craveiro, que é levada à cena esta quinta-feira, 18 de junho, também. "Estamos a tentar trazer aqui os nossos colegas da Europa para ver o espetáculo", revela.
A nova temporada do CCB incluirá três espetáculos estrangeiros por via da Prospero New . Héritage , de Cedric Eeckhout, que presta homenagem às mães; A Place of Safety , da companhia Kepler-452 (através do Festival de Almada), que dá voz aos que ajudam a salvar migrantes no Mediterrâneo e que venceu o prémio Ubu de melhor espetáculo em Itália; e Hannibal , de Junior Mthombeni e Michael de Cock, em colaboração com o Teatro Nacional D. Maria II, e que fala da Europa de hoje e os desafios da migração e da relação com o passado colonial, através da ópera barroca Dido e Eneias do compositor Henry Purcell.
'Hannibal', de Junior Mthombeni e Michael de Cock.
Outro dos objetivos do CCB é atrair novos públicos à instituição. "Estou a viver no Martim Moniz, que não é bem a realidade daqui [Belém]. É um desafio para o futuro. As salas estão cheias, mas é preciso refletir sobre como atrair mais diversidade", diz o diretor artístico.
Para Rangoni, "o público hoje na cidade é cada vez mais fragmentado, estamos em tribos diversas, é o mesmo desafio que os políticos estão a enfrentar". "As instituições são vistas como poderosas, é…
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