As plataformas digitais deixaram de ser apenas espaços de circulação de informação para se tornarem parte central da disputa política contemporânea. Em um ambiente marcado pela economia da atenção, pautas surgem e desaparecem em ritmo acelerado, emoções ganham mais espaço do que a reflexão e a compreensão do que está em jogo na política passa a ser mediada por algoritmos. O resultado é uma crescente dificuldade de construir uma realidade compartilhada, em meio à desinformação, à proliferação de conteúdos produzidos por inteligências artificiais e à influência cada vez maior das Big Techs sobre o debate público.
No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip conversa com a antropóloga e pesquisadora Letícia Cesarino sobre os impactos dessa transformação para a democracia. Ela analisa como estamos passando de uma lógica de bolhas para uma espécie de “névoa mental permanente”. “Estamos passando de uma topologia de bolhas para uma topologia de névoa mental, no sentido de que a exposição e o acesso aos fatos públicos estão separados do que realmente acontece nos bastidores da política.”
Cesarino também discute os riscos dessa nova configuração para as eleições de 2026, o avanço da extrema direita nas plataformas digitais e os desafios de reconstruir debates públicos capazes de enfrentar a desinformação e garantir a democracia. Segundo ela, “as plataformas nos colocaram numa temporalidade de crise permanente, que parece muito mais uma temporalidade de guerra do que uma temporalidade de democracia.” Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 220
Da bolha à névoa mental: a disputa política nas redes sociais – com Letícia Cesarino
12 de junho de 2026
·
A antropóloga Letícia Cesarino analisa como o ambiente digital está transformando a percepção das pautas políticas
0:00
Veja mais episódios desta série
Em artigo na Carta Capital , você fala sobre como o que antes a gente chamava de guerra de narrativas entre bolhas, com relação ao debate político nas redes sociais, evoluiu para uma névoa mental que embaça a nossa visão com relação à política. E, nesse mesmo artigo, você fala sobre essa lógica do senso comum e da lógica própria das mídias digitais, que é afetiva, intuitiva e subliminar mais do que reflexiva e consciente. Eu queria te ouvir sobre isso, sobretudo pensando que estamos em ano de eleições no Brasil.
São processos que já vinham vindo aos poucos, na medida em que a esfera pública foi sendo plataformizada, e os debates eleitorais, as escolhas eleitorais, o debate sobre pautas públicas em geral, vinham passando cada vez mais por dentro dos ambientes digitais, que têm, como a gente sabe, uma lógica de mediação, de comunicação, bastante diferente. Tanto da vida offline, da interação interpessoal, face a face, como do sistema de mídia que existia antes, que tinha muitos problemas, mas os problemas que a gente tem são outros.
Às vezes a gente está olhando para a comunicação pública com as mesmas lentes do sistema pré-digital, sendo que no sistema que a gente está agora, que é onde tem essa mediação universal por parte dos algoritmos, [muda] a própria lógica da comunicação e por conseguinte, da forma como as pessoas veem, pensam a política, acessam os fatos que estão relevantes para a política e com consequência direta para as suas escolhas eleitorais.
Então, já vinha vindo algo no sentido de essa nova lógica começando a crescer e competir com a lógica anterior. Por exemplo, o que se chama na literatura de polarização afetiva na política, ou seja, o fato de que escolhas eleitorais preferências políticas, a própria compreensão das pautas do que está em jogo na política, começou a passar cada vez mais por dimensões afetivas, ligadas ao senso comum, moralidades, o bom e o mal, interpelação, a partir da lógica da economia da atenção, que é essa lógica que privilegia ou premia aquilo que chama atenção.
A gente não tem nem tempo para pausar e pensar nos assuntos. Então, teve uma mudança um pouco qualitativa, do que estamos vendo, talvez nos últimos dois, três anos. Foi um pouco nesse sentido que eu escrevi a coluna. É algo que acontecia, mas ainda era relativamente minoritário, porém está tomando centro da política, como essa passagem de uma topologia de bolhas para uma topologia de uma névoa mental permanente, porque no modelo da bolha, você tinha dois campos ali que disputavam, que vinha as coisas de forma diferente, cada um com seu viés de confirmação, mas ainda assim, eles estavam no mesmo campo, digamos assim, disputando dentro do mesmo campo.
Agora, a impressão que dá é que essa lógica da bifurcação de bolha, ela está se dando de forma mais transversal, no sentido de que a própria camada de exposição e acesso dos fatos públicosestá meio que separada do que realmente está acontecendo numa espécie de backstage da política, onde a política continua sendo complexa.
Essa camada que veio meio para um backstage e essa camada que está no frontstage , que é a camada controlada no…
Read the full article at Agência Pública →