Quando estou abatida vejo desenhos animados, de preferência da Disney ou da DreamWorks. São bons, bem escritos, bem feitos, pensados para miúdos e graúdos, como aquelas casas antigas que têm portas para divisões diferentes mas acabam todas por dar ao mesmo corredor. Tocam em cordas distintas e, de uma forma ou de outra, atingem-nos a todos.
Há uns anos, depois de o namorado me ter deixado e de ter perdido o emprego — porque as desgraças, como as famílias numerosas, raramente aparecem sozinhas — pus-me a ver Kung Fu Panda. Eu, que não gosto particularmente de artes marciais nem de pandas, esses bichos que parecem almofadas com olhos e afinal são capazes de uma agressividade inesperada. A certa altura surge o Mestre Oogway, uma tartaruga antiga como as árvores e talvez mais sábia do que muitos dos sábios que passam a vida a anunciar a sua sabedoria, e diz: "O ontem é história, o amanhã é um mistério, mas hoje é uma dádiva. Por isso se chama presente."
A frase ficou algures dentro de mim, submersa como ficam os objectos no fundo de um rio, sem desaparecerem verdadeiramente. Há dias regressou à superfície com uma nitidez quase incómoda. Tenho pensado que só existe o presente. Parece uma banalidade daquelas que se imprimem em canecas, mas talvez seja verdade. O passado é uma espécie de arquivo mal organizado, cheio de gavetas que abrimos e fechamos conforme a coragem. O futuro é uma invenção obstinada da ansiedade. Talvez por isso a vida se torne mais leve quando deixamos de a carregar inteira às costas. Quando aceitamos que a realidade não se apresenta em blocos de décadas, mas em pequenas parcelas sucessivas.
Não quero soar a líder motivacional, Deus me livre de semelhante destino. Limito-me a suspeitar que estamos mais tranquilos quando habitamos aquilo que temos diante de nós. O resto são fantasmas, alguns vêm de trás, outros vêm de frente. Acho eu. Mas não confiem demasiado. Sei pouco e muitas vezes nem esse pouco é fiável. Portanto, não emprestem os vossos olhos a ninguém. Nem sequer a Tirésias. Porque mesmo um homem capaz de adivinhar o futuro talvez não consiga ver-vos agora, neste instante exacto, às apalpadelas no presente.
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