Depois de um vídeo viral reacender o debate sobre o comportamento da geração Z em entrevistas de emprego, especialistas em recursos humanos ouvidos pela Folha afirmam que a principal barreira para jovens pode estar na falta de habilidades comportamentais de alguns candidatos, o que pode atingir profissionais de qualquer geração.
Para Jacqueline Resch, sócia-diretora da consultoria Resch RH, empresas valorizam cada vez mais técnicas de comunicação, adaptabilidade, colaboração e capacidade de aprendizado . "O mercado não está necessariamente mais exigente, mas as exigências mudaram", afirma.
A avaliação é semelhante à de Andre Purri, CEO da plataforma de benefícios Alymente. Segundo ele, muitas companhias hoje buscam profissionais capazes de aprender rapidamente, lidar com mudanças e trabalhar em ambientes cada vez mais dinâmicos.
Entidades internacionais, como a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), também consideram importante esse aprendizado. O relatório "Future of Education and Skills 2030" (O Futuro da Educação e Habilidades 2030) destaca as competências de responsabilidade, criatividade e empatia como bons exemplos.
Ainda assim, a principal queixa de muitos candidatos em busca da primeira oportunidade é não conseguir avançar para a etapa de entrevista.
É o caso do estudante de jornalismo Carlos Colla, 20. Morador do Flamengo, no Rio de Janeiro , ele procura vagas em lojas de artigos esportivos e estágios em televisão. Apesar de já ter enviado diversos currículos, afirma que raramente é chamado para conversar com recrutadores.
"Como não temos experiência nem um currículo extenso, acaba sendo bem raro passar para a fase das entrevistas", diz.
Ele afirma que pesquisou na internet sobre como elaborar um bom currículo e se comportar em processos seletivos, além de receber orientações do pai e da faculdade.
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A estudante de design gráfico Clara Moreira, 20, vive situação semelhante. Prestes a concluir a graduação, ela busca a primeira oportunidade tanto na área de design quanto como professora de dança, seu hobby desde a adolescência .
"Nunca cheguei na etapa das entrevistas. Eles só pedem o currículo", afirma.
Heliana Silva, gerente da consultoria de recrutamento SGF Global no Brasil, diz que as mudanças observadas refletem transformações na forma como os jovens se relacionam com o mercado de trabalho.
"Essa geração cresceu em um ambiente altamente digital , com acesso rápido à informação e formas de comunicação mais diretas", afirma. Segundo ela, candidatos mais jovens podem ter menos familiaridade com protocolos tradicionais de processos seletivos, mas costumam demonstrar mais naturalidade para falar sobre expectativas e valores.
Para Resch, a percepção de que a geração Z tem mais dificuldade para se comportar em entrevistas pode refletir diferenças culturais entre gerações, e não necessariamente menor preparo profissional.
A especialista afirma que os jovens costumam ver o trabalho de forma menos central na vida e tendem a buscar relações mais equilibradas com os empregadores. Também costumam ser mais espontâneos ao falar sobre expectativas, salários, benefícios e qualidade de vida.
"A questão que precisamos considerar é se as habilidades valorizadas pelas entrevistas tradicionais são as mesmas que a geração Z desenvolveu", afirma.
Para Resch, a não contratação normalmente está ligada à experiência incompatível com as exigências do cargo, falta de preparo para o processo seletivo, lacunas em habilidades comportamentais, expectativas desalinhadas entre empresa e candidato e alta concorrência no mercado de trabalho , o que pode ocorrer em trabalhadores de qualquer geração.
A discussão ocorre em um momento em que o Congresso tenta ampliar a inserção dos jovens no mercado de trabalho.
No fim de maio, o Senado aprovou o projeto que cria o contrato de primeiro emprego para pessoas de 18 a 29 anos que nunca tiveram carteira assinada. A proposta reduz encargos trabalhistas para empresas que contratarem esses profissionais e aguarda sanção presidencial.
O objetivo é facilitar a entrada de jovens no mercado formal, especialmente daqueles que enfrentam dificuldades para conquistar a primeira experiência profissional .
COMO SE SAIR MELHOR NA PRIMEIRA ENTREVISTA?
Segundo Jacqueline Resch, seis atitudes podem ajudar candidatos iniciantes:
Pesquise a empresa e a vaga: conheça a área de atuação, os valores da organização e os requisitos da função.
Saiba contar sua história: cursos, projetos acadêmicos, trabalhos voluntários e atividades extracurriculares podem demonstrar competências importantes.
Use exemplos concretos: em vez de apenas afirmar que é comunicativo ou responsável, relate situações que comprovem essas características.
Evite respostas prontas: frases genéricas costumam ter pouco impacto em entrevistas.
Cuide da postura: pontualidade, atenção…
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