Ventos fortes nunca me derrubaram. Rio-me quando acreditam que uma brisa ligeira me pode afectar. Vivo bem com as opiniões dos outros — a cascata de perdigotos e disparates que lhes sai da boca, por isso tatuei uma lápide no braço direito onde pode ler-se: " Your opinion ". Quer dizer, podia ler-se, se eu a deixasse visível. Mas desde que entrei no partido achei por bem só mostrá-la a um círculo de pessoas muito restrito.
Há quem pense que tenho a mania, que me sinto superior aos outros e, na verdade, não estão errados. Só que não é uma questão de fantasia: é a mais pura constatação da realidade. Sou boa em tudo o que faço, sobretudo com as mulheres, sobretudo a fingir vulnerabilidade. As pessoas ficam malucas quando entremeiam virilidade e vulnerabilidade em doses razoáveis; é a maneira mais eficaz de lhes ganhar a confiança. Caem que nem patinhos numa cascata sem retorno. Atenção que não sou cruel. Afinal de contas sou uma mulher, tenho os meus limites e às vezes faço coisas que me tiram o sono. Mas não me embaraça confessar que sou egoísta e ajo sempre de acordo com os meus desejos. Tenho sucesso. Devia desculpar-me por isso? Há quem diga que só os narcisistas ou os sociopatas chegam ao topo, seja do Evereste ou de uma multinacional. O meu Evereste é a política. Desde miúda que sonho em ser primeira-ministra e hei-de lá chegar, com ou sem nariz como o famoso alpinista. Vou fazer uma graça espirituosa, aguentem, com ou sem nariz, mas sem perder o faro.
Por isso é claro na minha cabeça que preciso dos vossos votos e dispenso as vossas opiniões. Como-as ao pequeno-almoço, como faziam os comunistas com as criancinhas. E não sou má pessoa, acreditem. Sou até bastante decente e não temos de estar sempre de acordo em tudo. Esta mania contemporânea da concordância ou da gritaria tem de parar, definitivamente. Aliás, penso que o desacordo é fundamental, só para vos poder mostrar que eu tenho razão.
E pode ser aos gritos, erguendo a voz, sobretudo quando tenho de responder publicamente às acusações de passivo-agressividade. Respondo-vos aos berros ou não respondo de todo. Muitas vezes gritar limpa-nos por dentro, não concordam?
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